Filhx,
Hoje é dia 23 de Agosto de 2017 e lhe escrevo minha primeira carta. Talvez numa tentativa de esvaziar meu peito e melhorar a dor que sinto aqui dentro. Quero poder compartilhar contigo, ainda que você não esteja nesse mundo, minhas culpas, medos, angústias e realizações. Para que você um dia possa ler e entender um pouco mais sobre a sua mãe, sua família e sobre o ambiente na qual você foi gerado e foi educado.
Estamos muito ansiosos pela sua chegada e você ainda nem foi gerado. Não sinto seu coração, nem tenho ainda a semente de você crescendo em mim. E isso está começando a doer bastante, de forma bem profunda. Você é muito esperado e muito desejado. Estamos tentando todos os meses, de forma concentrada e repleta de doação, mas não está acontecendo. Mas eu sei que você está aí.....em algum lugar, sentindo, ouvindo ou vibrando por essa oportunidade.
Essa semana, a mamãe fez um exame, para saber se está tudo bem com meu corpo e se ele é saudável o suficiente para receber você. E estava aqui agora, na internet, pesquisando sobre formas, alimentos, posições, enfim, tudo que possa nos ajudar nesse momento para que você venha logo e para que possamos ter você em nossas vidas. Mas ao mesmo tempo que eu pesquiso, eu choro, com medo que isso gere uma expectativa ainda maior. Estamos tentando controlá-la, sabe! A danada da expectativa que todos os meses gera frustração sempre que o ciclo desce e que a dor física chega.
Aprenda uma coisa: expectativas são muito ruins. Elas são o resultado de muitos problemas que nós humanos temos. Criamos uma expectativa tão grande que quando ela não se concretiza, nos sentimos tristes, perdidos, sem rumo. Por isso, quando você chegar, vamos tentar te educar em um universo que não existam muitas expectativas, para que você não sinta o peso da decepção tão presente.
Queria te contar uma coisa: A mamae e o papai já engravidaram no ano retrasado. Era Outubro de 2015 e eu descobri que estava grávida. Fiquei feliz, muito feliz, mas confusa ao mesmo tempo, porque era um momento conturbado da minha vida. Estava trabalhando muito, precisei esconder isso de muitas pessoas e no final, acabou não acontecendo. A sementinha não cresceu e acabou saindo. Não foi fácil, sabe. Mas eu e seu pai tentamos enxergar o lado positivo dessa experiência. Achamos que tinha sido um sinal e que isso mostrava que éramos saudáveis. Imaginei que você chegaria logo depois, mas não foi o que aconteceu. Já se pasaram quase dois anos e você ainda não chegou. Aí estamos aprendendo a controlar a nossa ansiedade e desenvolver a nossa paciência, porque queremos muito que você venha logo. Queremos muito poder brincar com você e te ensinar tantas coisas sobre a vida.
E ao mesmo tempo que tentamos segurar a nossa ansiedade, ela cresce cada dia mais. As pessoas que estão à nossa volta não entendem muito o que estamos passando porque poucas pessoas sabem dessa nossa história. E as pessoas são tão poucos sensíveis com a dor do outro. Você vai ver como é esse mundo! É um lugar difícil de se viver porque as pessoas não costumam ser muito solidárias com a dor do outro. E as pessoas acabam criando julgamentos e certezas, frases prontas que só magoam o outro. Você terá a oportunidade de vivenciar isso pessoalmente, porque por mais que eu e seu pai tentemos tranformar o mundo para que ele seja melhor pra você, será inevitável você lidar com todos os tipos de pessoas desse mundo. Alguém vai te magoar, mesmo sem querer e sem saber.
Mamãe agora vai começar a pesquisar formas de melhorar a ansiedade porque a meditação diária, as preces e os pensamentos positivos não estão funcionando. Talvez eu precise de algo mais para conseguir te aguardar com carinho o seu momento de chegar.
E quando você quiser chegar, quando você estiver pronto, estaremos aqui te esperando. Com todo o nosso amor e com toda a nossa dedicação.
Com amor, Sua mãe.