terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Cura (escrito em 30/01)

Filha,Essa carta é mais para mim mesma do que para você. Talvez esteja escrevendo para a minha criança interior que ficou esquecida lá atrás e que, agora, clama por um pouco de atenção.
Há pelo menos 8 anos, filha, eu tinha tomado a decisão de deixar meu trabalho por alguns anos para ser mãe. Pelo fato de ter adiado por tantos anos essa experiência de vida, eu queria poder me dedicar a ela de forma exclusiva, sem ter que lidar com aquelas dores acessórias de ter que trabalhar para nos sustentar ou ter que dividir meu tempo entre meus filhos e os outros pilares da vida. E fui estabelecendo minhas metas dentro dessa lógica.
Os planos não saíram exatamente da forma como planejei. Mas elas aconteceram no seu tempo certo e hoje sou apenas mãe. E apesar de toda a gratidão que sinto por esse momento, não imaginava que passaria por tantos outros processos. Desde que você nasceu que sou uma mistura de felicidade e mudanças. Não me reconheço mais naquela que eu era. E nem mesmo nas escolhas e decisões que fiz. Não existe arrependimento! De forma alguma! Mas é que a maternidade abriu um baú repleto de coisas antigas que eu vasculho todos os dias. Tem dias que o que sai desse baú é lindo, perfumado e colorido. Tem dias que o que o que eu reviro é negro, feio e assustador. Tudo isso porque você faz ressoar isso, sem nem perceber. Foi com a maternidade que descobri o que é descortinar as sombras. Como é complexo a gente desejar ser uma coisa e, no momento da irritação e do desespero, aperceber-se agindo de uma outra forma, repetindo aqueles padrões que a gente luta para nem enxergar. Foi a partir de você que me deparei com a minha criança interior ferida e todo o abandono emocional que ela sofreu. E tem dias, filha, que sinto um vazio tão grande que o choro é inevitável. 
Essa semana foi dura. Em vários momentos me deparei com momentos em que essa criança veio ao meu encontro. Em alguns, consegui romper e me reconectar com vc. Em outros, simplesmente explodi. E depois chorei dentro da minha solidão e da culpa de querer fazer diferente e não conseguir.
Na segunda você fez um coco enorme. Tão grande que a única alternativa era levar você para um banho. A banheira já estava preparada e coloquei vc naquela água fria. Vc logo reclamou. E aí eu fiquei ali te pedindo para ficar parada, para entender minha impaciência de lidar com aquela situação. Veio à luz o meu lado prático de resolver as coisas com pressa e pouca sensibilidade. E foi aí que você chorou mais. Nesse momento, me veio um estalo. Eu enxerguei minha criança sentada, vestida de balé, tentando ser criança e sendo podada. Foi aí que parei e te abracei. Imediatamente você parou de chorar. Nos reconectamos e te pedi desculpas por não ter entendido, de imediato as suas necessidades. 
No outro dia, me vi desesperada para que você dormisse, pra que eu pudesse fazer minhas atividades de casa e trabalho. Depois de muito esforço, eu consegui. E aí o vizinho te acorda, após apenas 20 minutos. Fiquei chateada e com raiva do vizinho. Me coloquei na posição de vítima, sem perceber. E é tão natural esses momentos, por mais que racionalmente eu não queira. 
Peguei você e levei-a até o seu quarto e coloquei-a no chão, com a expectativa de que vc se satisfizesse apenas com a minha presença ali no mesmo cômodo. Mas pra vc não bastava. Você queria contato, conexão, presença. Super natural, mas muitas vezes difícil de entender e atender. Aí dei uma surtada, gritei forte, bati palma, xinguei o vizinho. Mas depois respirei e te peguei no colo. Te acolhi de novo, mas quem queria ser acolhida era a minha criança. Consegui me reconectar e fomos fazer um bolo de maçã. Melhorou! Mas depois na cama, deitada com você, veio à lembrança da minha infância. Fiquei pensando o quanto de acolhimento eu tive. Tenho a impressão de que não foi nenhuma. Talvez o fato de ser a caçula de um grupo de 3 irmãos (que deram muito tabalho), tenha me privado de receber conexão. Talvez minha educação tenha sido no modo automático, naquela filosofia que quem cuida de 2, cuida de 3. E não é bem assim. Pode até cuidar, mas não como precisa, não com o foco em atender às necessidades que cada criança vai demandar. E aí...cresci assim, desconectada da minha essência e me tornando uma adulta que está em busca de algo que não sabe o que é.
Não quero repetir isso com você, filha! Meu desejo é que eu possa te educar conectada com a sua essência, para que você consiga desempenhar o seu potencial máximo. Mas as vezes isso parece tão improvável. Possível, mas improvável. Porque nesse processo, muitas vezes me vejo dando o que nunca tive, Me doando de uma forma como nunca recebi. E aí é tão tão difícil! É difícil quebrar certos padrões que insistem em permanecer, por mais que eu estude, que eu pense, que eu racionalize. Mas o coração não reflete o que a cabeça já compreendeu. 
E nesse ambiente, filha, é que eu sigo tentando. Buscando a minha própria cura, tentando acolher a minha criança, mas ainda repetindo processos de desamor, culpa e autocobrança que só me afastam do meu maior objetivo de ser melhor, por você e pra você.
Te peço perdão, filha. Por todas essas vezes que eu não consigo ser a minha melhor versão. Saiba que estou tentando, a todo o tempo, me auto-educar pra nós duas. Meu amor por você é grande demais para que eu desista de tentar.

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