Filhx,
Eu preciso te contar que, às vezes, e poucas vezes, a mamae e o papai brigam. Hoje foi um dia desses. Nossos conflitos são calmos, tranquilos e nunca são permeados de palavras duras ou xingamentos. Somos muito ponderados e o respeito prevalece sempre, apesar da divergência de opiniões. Mas ainda que diante de uma relação tranquila e saudável, existem conflitos e eles são importantes para o nosso desenvolvimento.
Acredito que a discussão de hoje foi potencializada por um sentimento latente que ando sentindo: medo do futuro. Você vai chegar em breve e eu fico com medo de não conseguir realizar os planos e projetos que fizemos para nós três pelo simples fato da ausência material, de não termos dinheiro suficiente para nos mantermos. Eu quero estar em casa com você, acompanhar seus primeiros anos de vida e estar ao seu lado a cada dia nutrindo a sua criatividade, a sua autoestima e ajudando você a desenvolver as suas maiores potencialidades. Planejamos muito isso e tive anos de sacrificio para que eu conseguisse realizar esse sonho. Mas os planos são um norte e a gente não controla tudo. Imaginei que a maternidade viesse mais cedo, e ela não veio. Está chegando agora e nós dois sabemos bem que não foi por acaso. Era preciso esse tempo adicional para nós todos! Mas o dinheiro está acabando e eu temo que seja preciso arregaçar as mangas e deixar as nossas escolhas de lado.
Papai se formou, mas também não consegue um emprego. E eu tenho tentado encontrar um trabalho que me dê um certo retorno financeiro (não precisa ser um mega salário), mas que traga flexibilidade para estamos juntos na maior parte do tempo. Algumas coisas até estão acontecendo, mas não na velocidade que esperamos. Somos assim mesmos, filhx, ansiosos por natureza, apesar de todas as tentativas e vontade de ser diferente.
São tantas incertezas que isso está me deixando preocupada e colocando uma responsabilidade grande no seu pai. Ando achando ele preguiçoso, com falta de garra e muito tranquilo para o que está por vir. É claro que nem todo tempo é assim. Muitas vezes ele se preocupa, se esforça e "vai à luta". Mas parece que para mim, nunca é suficiente. E isso são sentimentos tão ruins, filhx. Me faz questionar se vai dar certo mesmo, faz questionar minhas escolhas do passado, ao mesmo tempo que eu penso que não é justo depositar nele as minhas proprias necessidades. Mas você chegará em breve e eu fico angustiada só de pensar em estar longe de você, depois de tanta espera e expectativas. Porque uma solução seria eu voltar a trabalhar naquele regime de horário comercial, mas eu fico em pânico só de pensar nessa possibilidade. Ai acabo depositando no seu pai toda a minha esperança da realização dos nossos sonhos originais. E isso tudo gera medos e expectativas, o que potencializa os conflitos e discussões.
O mais importante, filhx, é que eu tenho consciencia desse peso que estou colocando sobre ele. E não quero fazer isso, porque vem na minha cabeça uma série de questionamentos do passado sobrna relação das suas avós com seus avôs e fico pensando que, na verdade, o mundo precisa romper com essa questão da responsabilidade de colocar sobre os homens o sustento da família e sobre as mulheres, a criação e educação dos filhos. Sou uma entusiata dos novos mundos e acho cruel demais a gente colocar papeis sobre as pessoas, pois isso faz com que elas não sejam o que querem ser de fato. É nesse contexto e universo que quero que você cresça, filhx, das possibilidades multiplas de sermos e aceitarmos o que quisermos ser, sem rótulos e impecilhos. Então eu preciso ser coerente com minhas convicções e garantir que não estou exigindo do seu pai, uma posição que ele talvez não queira assumir.
Enfim, os conflitos são sempre positivos porque nos ajudam a refletir. E faz a gente evoluir. Já está tudo bem com o papai e com a mamãe e continuamos seguindo com fé no futuro para que tudo dê certo. 2019 será um grande ano porque você estará conosco.
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