Alguns dias são bem difíceis, filha. Tenho que te dizer que, apesar de você ser uma lindeza e te amarmos profundamente, por vezes ficamos irritados e chateados. Somos humanos e isso faz parte!
Você me demanda demais, todos os dias. Acho isso normal e natural para uma bebê de 30 dias. Mas em alguns momentos, é um pouco irritante querer 20 minutos para pegar sol nos seios, enquanto vc aguarda ali na mesma cama que eu, e vc não colaborar, chorando e exigindo colo naquele instante. Poxa, pegar esse sol tb é pra vc, para cicatrizar meus bicos e garantir que eu consiga oferecer a você o tanto quanto os demanda. Mas por mais que eu tente distraí-la, conversar ou convencê- la, ainda não existe diálogo e vc não aceita. Eu tenho a opção de te deixar chorando. Mas não acho justo com vc e nem comigo mesma, pois o seu choro atinge meus tímpanos e meu sistema nervoso de uma forma, que leva as minhas forças e paciência. Aí acabo cedendo, bem impaciente e com um pouco de raiva por perceber que minha anulação é completa por você. Duro isso! Difícil a gente “realizar” que a maternidade é uma anulação completa do nosso ser. Eu já não me reconheço mais: já não realizo as minhas próprias vontades, já não posso comer o que quero (pq pode dar gases), nem posso mais tomar aquele banho gostoso demorado. A gente passa o dia em casa, nem sempre consegue comer com calma e nem lembra de escovar os dentes.
Estou tentando desde às 11:30 descer para irmos ao bosque. Estou precisando me reconectar com a natureza para tentar reencontrar o meu “Eu”. Mas ainda não conseguimos porque vc chora e demanda o peito para se calar. E eu fico aqui amamentando e chorando, me sentindo apenas um pedaço.
E as cólicas....ah como eu odeio elas (muito mais que você possa imaginar). Elas te fazem ficar irritada e me faz desejar que esses 3 meses passem logo. Aí eu me lembro que eu não quero que o tempo passe rápido porque quero curtir cada momento do seu desenvolvimento e da sua existência, por mais difíceis que eles sejam. Ai vem mais culpa por esses pensamentos desalinhados com o nosso maior desejo de ter você em nossas vidas!
A maternidade é assim, filha: uma montanha russa de sentimentos que se misturam. E quando você sorri, só resta o amor, profundo e verdadeiro.
Por isso, me perdoe pelas vezes em que faltou paciência para ser empática com você, pelas lagrimas derramadas sem saber o que fazer, por desejar seu sono, por pedir que você nos ajude, quando na verdade sua condição é infinitamente mais difícil que a nossa.
Me perdoe por ter tanto medo de que algo aconteça com você e pelos pensamentos neuróticos em função disso. Me perdoe por tantas vezes que pensei que seria mais fácil, que a maternidade seria romântica e perfeita apenas pelo fato de termos desejado tanto isso e termos sonhado por tantos anos por esse momento.
Às vezes me pego pensando como seria se a vontade de ser mãe não existisse? Como seria passar por tudo isso com um sentimento de não ter desejado isso? Será que seria melhor, já que não haveria expectativa?! Eu são sei, mas não páro de pensar em todas essas mulheres que não desejavam a maternidade e como deve ser para elas. E ai eu lembro, filha, do dia em que chorei copiosamente pensando que tinha abortado novamente. Naquele dia, o meu desejo de ser mãe era tão forte que eu em minhas palavras eu confessava um amor sem abalos, prometia uma dedicação plena e sem vacilos. E hoje eu me culpo pelos sentimentos que gero nos dias mais difíceis, quando a paciência insiste em dar um passeio. Não que falte amor, de jeito algum. Este é profundo e inabalável e vai estar sempre aqui. Mas bate às vezes essa impaciência, essa falta de empatia, como se você já tivesse consciência das suas atitudes. E depois quando percebo que vc ainda é um serzinho quase primitivo, vem a culpa e a consciência do quanto eu criei expectativas sobre os meus sentimentos e o quanto ainda preciso evoluir. Isso é triste, mas ao mesmo tempo revelador porque é mais um passo no meu autoconhecimento.
E seguimos assim, filha. Vivendo um dia de cada vez, descobrindo coisas novas que estavam lá guardadas e agora vêm à tona nesse novo Eu! Obrigada por me proporcionar mais isso!