quarta-feira, 24 de julho de 2019

Me perdoe

Alguns dias são bem difíceis, filha. Tenho que te dizer que, apesar de você ser uma lindeza e te amarmos profundamente, por vezes ficamos irritados e chateados. Somos humanos e isso faz parte! 
Você me demanda demais, todos os dias. Acho isso normal e natural para uma bebê de 30 dias. Mas em alguns momentos, é um pouco irritante querer 20 minutos para pegar sol nos seios, enquanto vc aguarda ali na mesma cama que eu, e vc não colaborar, chorando e exigindo colo naquele instante. Poxa, pegar esse sol tb é pra vc, para cicatrizar meus bicos e garantir que eu consiga oferecer a você o tanto quanto os demanda. Mas por mais que eu tente distraí-la, conversar ou convencê- la, ainda não existe diálogo e vc não aceita. Eu tenho a opção de te deixar chorando. Mas não acho justo com vc e nem comigo mesma, pois o seu choro atinge meus tímpanos e meu sistema nervoso de uma forma, que leva as minhas forças e paciência. Aí acabo cedendo, bem impaciente e com um pouco de raiva por perceber que minha anulação é completa por você. Duro isso! Difícil a gente “realizar” que a maternidade é uma anulação completa do nosso ser. Eu já não me reconheço mais: já não realizo as minhas próprias vontades, já não posso comer o que quero (pq pode dar gases), nem posso mais tomar aquele banho gostoso demorado. A gente passa o dia em casa, nem sempre consegue comer com calma e nem lembra de escovar os dentes. 
Estou tentando desde às 11:30 descer para irmos ao bosque. Estou precisando me reconectar com a natureza para tentar reencontrar o meu “Eu”. Mas ainda não conseguimos porque vc chora e demanda o peito para se calar. E eu fico aqui amamentando e chorando, me sentindo apenas um pedaço.
E as cólicas....ah como eu odeio elas (muito mais que você possa imaginar). Elas te fazem ficar irritada e me faz desejar que esses 3 meses passem logo. Aí eu me lembro que eu não quero que o tempo passe rápido porque quero curtir cada momento do seu desenvolvimento e da sua existência, por mais difíceis que eles sejam. Ai vem mais culpa por esses pensamentos desalinhados com o nosso maior desejo de ter você em nossas vidas! 
A maternidade é assim, filha: uma montanha russa de sentimentos que se misturam. E quando você sorri, só resta o amor, profundo e verdadeiro.
Por isso, me perdoe pelas vezes em que faltou paciência para ser empática com você, pelas lagrimas derramadas sem saber o que fazer, por desejar seu sono, por pedir que você nos ajude, quando na verdade sua condição é infinitamente mais difícil que a nossa.
Me perdoe por ter tanto medo de que algo aconteça com você e pelos pensamentos neuróticos em função disso. Me perdoe por tantas vezes que pensei que seria mais fácil, que a maternidade seria romântica e perfeita apenas pelo fato de termos desejado tanto isso e termos sonhado por tantos anos por esse momento. 
Às vezes me pego pensando como seria se a vontade de ser mãe não existisse? Como seria passar por tudo isso com um sentimento de não ter desejado isso? Será que seria melhor, já que não haveria expectativa?! Eu são sei, mas não páro de pensar em todas essas mulheres que não desejavam a maternidade e como deve ser para elas. E ai eu lembro, filha, do dia em que chorei copiosamente pensando que tinha abortado novamente. Naquele dia, o meu desejo de ser mãe era tão forte que eu em minhas palavras eu confessava um amor sem abalos, prometia uma dedicação plena e sem vacilos. E hoje eu me culpo pelos sentimentos que gero nos dias mais difíceis, quando a paciência insiste em dar um passeio. Não que falte amor, de jeito algum. Este é profundo e inabalável e vai estar sempre aqui. Mas bate às vezes essa impaciência, essa falta de empatia, como se você já tivesse consciência das suas atitudes. E depois quando percebo que vc ainda é um serzinho quase primitivo, vem a culpa e a consciência do quanto eu criei expectativas sobre os meus sentimentos e o quanto ainda preciso evoluir. Isso é triste, mas ao mesmo tempo revelador porque é mais um passo no meu autoconhecimento.
E seguimos assim, filha. Vivendo um dia de cada vez, descobrindo coisas novas que estavam lá guardadas e agora vêm à tona nesse novo Eu! Obrigada por me proporcionar mais isso! 

30 dias (escrito em 02/07)

Filha,
Um mês já se passou. Passou rápido, certamente, mas não podemos dizer que foram dias fáceis. Ao contrário, apesar das delícias da maternidade, foram dias duros e muito intensos. E quero deixar registrado por aqui porque esses dias foram reais e fazem parte da nossa história, que será repleta de bons momentos, mas que também terá dias difíceis e complicados. É a vida real, como precisa ser! 

Derramei muitas lágrimas ao longo desses 30 dias: pela dor durante a amamentação, de solidão pelas noites acordada, de receio pelo corpo que mudou e que jamais será o mesmo, de saudade da vida e da rotina que deixei pra trás (mesmo optando por isso), de medo pela dependência emocional profunda (e no seu caso tb física) que percebo estabelecida entre nós duas. Também chorei de emoção e gratidão ao sentir você em meus braços e relembrar cada detalhe dessa trajetória que traçamos juntos e o quanto fomos amparados e abençoados por tantas pessoas a nossa volta. 

São sentimentos tão intensos e tão verdadeiros! Chorei sem motivo mesmo, sem conseguir identificar o sentimento, apenas por vontade de chorar e coloquei a culpa nos hormônios em ajustes no meu corpo físico, que se recupera do parto.

Além das minhas lágrimas, tem o seu choro! Alto, firme, agudo e estridente. Muitas vezes conseguimos pará-lo rapidamente com o simples ato de oferecer a mama (e isso me demanda demais da conta). Outras vezes, eu e seu pai balançamos você por toda a casa, em vão, tentando administrar ao mesmo tempo as suas necessidades, nossas dificuldades e nossa humilde paciência. Essas vezes são bem difíceis e nos consomem demais! Sabemos o quanto pedimos por isso e que faz parte do processo. Mas no momento dos “berros”, a gente exita e questiona nossa capacidade de sermos bons pais. 

Outro dia, extinta todas as tentativas, eu apelei até para uma prece. E não é que funcionou! Aparentemente esses choros são por cólicas (malditas sejam) que tira o seu bem estar e o nosso. Aí buscamos a todo custo alternativas para vc se sentir melhor, porque estamos ambos voltados para o seu bem estar e é muito doloroso ver você sofrendo por uma dor que desconhece ainda. 

E as noites mal dormidas? Essas são tensas (bem tensas) ainda mais para uma mãe que adora dormir e tem uma baixa tolerância para o sono. Você ainda não tem qualquer rotina previsível de sono (e como é muito nova, não queremos impor nada) e passei o mês inteiro dormindo pouquíssimo: no máximo 2 horas direto (momentos raros) e acordando todo o tempo para te amamentar, fazer arrotar, colocar pra dormir e vigiar seus sons noturnos (que me afligem e me fazem levantar para conferir se vc está bem, respirando e tranquila). Alguns dias são mais fáceis, outros mais difíceis, e a privação do sono e o cansaço esgotam nossas energias. 

Além de tudo isso, tem as suas demandas emocionais, que ao mesmo tempo que me delicia (é bom ser o Porto Seguro de alguém), também me assusta (será que isso é bom para a sua educação e independência?!). Basta você vir pro meu colo para acalmar. Basta eu oferecer meus seios para te nutrir que o choro cessa e a vida segue por horas intermináveis sentadas na poltrona de amamentação. Mas fico presa por lá, entre momentos de interação com você, o celular e uma leitura oportuna. E pela casa, cama pra fazer, comida pra cozinhar (e eu preciso comer bem para manter minha saúde em dia pra vc), roupas pra passar. Depois que a ajuda das suas avós foram embora, os primeiros dias foram bem difíceis. Até tracei alguns diálogos com você, pedindo ajuda e explicando que agora somos nós 3 e que vc precisa nos ajudar ficando no carrinho sozinha por algumas horinhas ao longo do dia. Aí vc me olha, conectada no meu peito, com um olhar de duvida, prestando atenção nas minhas palavras (ou lágrimas) e eu penso que talvez esteja criando expectativas demais e exigindo demais de você. Lembro que temos agora uma nova vida e que é preciso abrir mão de algumas coisas (com leveza) para deixar chegar o novo que tanto pedimos. 

Mais uma vez o desapego, filha!! Da rotina, dos controles, das vontades. É momento de deixar fluir e viver cada dia como se fosse único (porque eles são únicos mesmo). E tenho refletido muito sobre isso!! Tudo bem deixar uma louca pra lavar, uma roupa pra passar e uma cama por fazer. Não vai ser eterno e nem vai durar a vida toda. E nem preciso mostrar a casa pra ninguém, basta fazer vista grossa e deixar rolar. 

Vale mais estar com vc ali, acariciando seu rostinho, olhando suas milhares de caretas (que nos divertem demais) e sentir esse amor tão intenso que transborda e só cresce. Você é uma linda, de personalidade forte, sorrisos ainda involuntários e olhos expressivos. E estamos babando a cada dia com a sua presença, que nos tira da zona de conforto e nos nutre cada dia mais com a vontade de nos transformarmos e sermos melhores.

O que eu observo em você 5

  Filha, O tempo está passando mais rápido o que nossa consciência pode perceber. Aqui pela floria, acabamos e viver a experiência o nosso...