terça-feira, 22 de outubro de 2019

Círculo de Mulheres

Filha,

Mamãe quer compartilhar algo muito importante com você. Há alguns dias atrás, mamãe reconheceu a força e o poder que nós, mulheres, temos. E quando nos juntamos para um determinado propósito, essa força fica ainda mais forte e desperta no mundo uma nova consciência, impossível de parar. Quando nos mobilizamos numa roda, em que não há "dona", a energia emanada nesse ambiente é espetacular. Passei a perceber isso através do processo de coaching que estou participando. Está sendo tão maravilhoso conhecer e compartilhar com essas mulheres maravilhosas histórias tão lindas e intensas que eu não estou me contendo de emoção. Outro dia, durante a sessão, eu agradeci e chorei. Agradeci pela oportunidade de trocar com mulheres tão incríveis. E chorei porque cada um tem tanta coisa a ensinar e aprender. É lindo ver toda essa nossa força juntas!
Aí comecei a pensar na voz interior, que durante a gravidez, me levava a fazer um círculo de mulheres mães aqui no prédio. Eu nem sabia ainda sobre o conceito de círculo de mulheres, mas de algum forma essa energia estava lá me empurrando para a ação. Comecei a escrever o projeto, mas ainda falta muita coisa. Eu só não quero demorar muito, pois quero dar esse passo importante para nossas vidas antes que esse ano acabe. A Rita me incentivou a ir adiante e eu quero e sei que preciso.

Aí nesse processo eu comecei a pensar na nossa história. 

Durante a gravidez, eu achava que você seria homem. Não havia qualquer preferência. O sexo que viesse estava perfeito pra mim, mesmo porque, quando queremos muito uma coisa (e a sua chegada foi amparada com muito querer), certos pontos perdem a importância. E ser menino ou menina não tinha a menor importância pra mim. No entanto, eu sentia uma energia masculina. Talvez pela intuição de adolescente, talvez pelas informações vindas das médiuns de plantão (tanto sua avó Marise quanto a amiga Elaina insistiam que seria menino), talvez pela pressão da família Habib para garantir a continuidade do nome. Enfim, sentíamos uma energia masculina no ar. E quando soubemos que você era menina, ficamos surpresos, além da felicidade, é claro. 
Os dias foram se passando e eu fui pensando na responsabilidade de ser mãe de uma menina. Lembrei da minha infância e na relação tão superficial com a sua avó, que tanto me angustia. E amei a oportunidade de fazer diferente. De ajudá-la e ampará-la nos momentos mais intensos da nossa juventude: na primeira menstruação, no amor ao corpo, na descoberta da sexualidade, na maternidade (caso você deseje ser mãe). Agradeci por essa linda oportunidade de oferecer pra você tudo aquilo que eu não tive. Embora dar aquilo que não tivemos seja tão difícil, estou nesse processo de desbravar as minhas sombras para que eu consiga te oferecer o melhor que há em mim. 

Que possamos, filha, desbravar juntas lindos caminhos dentro da nossa feminilidade. Aproveitar essa nossa potência linda de dar a vida. Que jamais nos falte doçura e essa força poderosa que está transformando o mundo. Porque o futuro, vai ser feminino. Eu tenho certeza!!

4 meses (escrito em 03/10)

Esse mês passou tão rápido que nem deu tempo de terminar a escrita do mês passado. Acho que porque fomos ao Rio e passamos dias muito intensos entre conhecer pessoas e resolver questões práticas da vida. Só sei que quando pisquei, você já estava completando seu 4 mês de vida aqui fora da barriga. Consegui manter nossa rotina de brincadeiras e estímulos por poucos dias, o que me gera uma certa frustração pelos planos não realizados. Mas aí é preciso acolher esse sentimento e lembrar da leveza necessária para essa missão. Mesmo porque vc se desenvolve sozinha sem precisar de muitos estímulos e cresce saudável sem a nossa intervenção.
A cada dia você descobre um pouco mais do mundo. E o fato de já conseguir sair de casa e viajar com mais tranquilidade contribui pra isso e suaviza bastante aquela rotina de isolamento um tanto tensa pra mim. 
É claro que ainda faltam alguns meses pra vc conseguir passear em ambientes fechados e para termos uma rotina de saídas mais tranquilas. Mas a partir do Rio, já melhorou bastante essa questão do isolamento. 
Nesse último mês, filha, a mamãe tb ingressou num universo de conhecimentos bem profundos sobre ela mesma e sobre como te educar melhor. E as descobertas que tenho feito são tão profundas que marcarão as nossas trajetórias até aqui. Comecei um processo (na verdade comecei pouco antes de vc completar 3 meses) de coaching para mulheres e tem sido maravilhoso compartilhar tantas dores e amores com outras mulheres. Além disso, tenho lido muito sobre criança interior ferida e os impactos que isso tem na educação de filhos. E tanta leitura e estudo me fez refletir e querer investigar a fundo essa “Rosane” que ficou lá no passado, com medos e dificuldades para ser amada. Muitas coisas estão fazendo sentido pra mim, e me desperta a vontade de aprofundar cada vez mais. Tudo isso para ser uma pessoa melhor pra todos nós!!

3 meses (escrito em 01/09)

Filha,
Amanhã você completa 3 meses fora do meu útero e muita coisa aconteceu nesse último mês. Tantas coisas que fica até difícil listar. Seu sono à noite está cada vez mais longo, aprendemos a diferenciar melhor suas necessidades (entre dores e sono), o que nos trás uma tranquilidade bem maior ao ouvir seu choro. Os dias estão ficando cada vez mais coloridos quando acordamos com o seu sorriso e suas carinhas lindas. Você colocou brincos e eu quase dissolvi de remorso pelo sofrimento que lhe causei por não ter pesquisado melhor. Colocar você pra dormir está sendo cada vez mais mágico, envolvida em seu abraço e penetrando seus olhinhos que me olham de forma tão firme e doce. É uma sensação tão incrível que, só essa semana, eu chorei duas vezes de gratidão por essa oportunidade.

O que eu observo em você (escrito em 28/08)

Filha,
O tempo está passando rápido e devagar ao mesmo tempo. Rápido quando percebo o quanto já mudamos desde a sua chegada: você, eu e seu pai. E devagar porque as vezes fico querendo prever o futuro e já imagino tanta coisa gostosa que vamos descobrir juntos. É aquela chata ansiedade, e quando chegam esses pensamentos, procuro voltar ao presente e lembrar que é nele que preciso confiar e focar! 
Eu adoro te observar e jamais quero perder essa capacidade de ver com olhos de ver. E quero deixar registrado aqui algumas características que hoje , no início da sua vida, observamos, para que possamos ler junta um dia, para que o esquecimento da memória não apague esses momentos tão ricos. Porque quando eu olho pro tempo que já percorremos até aqui, embora com dedicação total é exclusiva, eu vejo o quanto a nossa memória já vacila.
Gosto de ver você mamando, olhando nos seus olinhos que ora estão fechados, ora estão abertos. Gosto de observar vc acordando, se espreguiçando e fazendo altas caras que tanto me divertem. Gosto de observar seu sono, que é tão agitado, e você se sacode, chuta, estica os bracinhos, como se uma dor interna te impedisse de dormir profundamente.
Adoro observar sua interação com o mundo, enquanto você observa os objetos, olha de forma curiosa, interage (segurando ou sorrindo) e depois choraminga, avisando que está entediada e que já não quer estar ali.
Gosto de observar seu corpinho frágil, esculpido com tamanha perfeição que fica até difícil se conter para não morder: seus dedinhos, seu cabelinho que começa a crescer, seu rostinho e perninhas gordinhas que são lindas de morrer.
Também gosto de observar sua personalidade, que muitas vezes nos tiram do sério e nos cansa tanto. Você não gosta de dormir sozinha. Precisa da nossa companhia no colo ou apenas ali ao lado para descansar profundamente. E parece que tem um sensor, de capacidade incrível. 
Você também tem uma grande necessidade de sucção (que deve ser comum em bebes). Você muitas vezes luta com o sono e precisa ser embalada para se convencer de que o descanso é a melhor opção naquele momento.
Nessas horas em que travamos uma luta entre o seu descanso e o nosso, adoro observar seu rostinho quando te coloco pra dormir. Muitas vezes você me olha com uma doçura linda. Às vezes se irrita e chora. Você gosta de ficar no sling, mas as vezes se sente espremida e reclama. Você adora um colinho, um afago e consegue diferenciar qd estamos sentados ou de pé (o que seu pai acha incrível). Adoro observar você tomando banho, seja na banheira, no chuveiro ou no balde. Você adora, não chora, e fica sempre com aquele olhar entre o prazer e a desconfiança. 
E colocar q roupa depois?! Ah...isso é uma batalha diária. Ainda não conseguimos entender, mas você se irrita demais sempre que vestimos seus braços. E é tão estressante (após um banho relaxante) que fico curiosa pra saber quais são as associações feitas por você (traumas, lembranças da vida passada?!) e fico desenvolvendo técnicas para tentar minimizar esse momento tão difícil do dia!
Gosto de observar como o seu jeitinho e o nosso convívio trazem à tona as nossas maiores sombras (minha e do seu pai). E o quanto precisaremos nos enxergar e reinventar nessa bela estrada da educação, que vai nos levar sobremaneira para um processo profundo de autoconhecimento.
E os dias vão passando, filha. Repleto de observações, reflexões e sentidos. E você vai crescendo, vai aprendendo e nos ensinando, cada dia mais. 

Paineira (escrito em 10/08)

Filha, 
Hoje foi um dia especial e quero deixar registrado aqui para que possamos nos lembrar um dia. Hoje conhecemos a sua futura escola por dentro. Ela segue a metodologia Waldorf e foi incrível como os acontecimentos foram se desencadeando. Descobri pelo Google maps que havia uma escola aqui perto de nós e pedi ao seu paí para visitarmos a mesma em um domingo. Ela estava fechada, mas curtimos por fora o ambiente e ficou aquela vontade de conhecer por dentro. Essa semana, pelo Facebook, resolvi fuçar pra saber sobre a escola e descobri que ela está fazendo 34 anos. Com isso, alguns eventos aberto ao público estavam disponíveis. Um deles aconteceu ontem e foi a contação da história da escola. Chegamos às 19hs, com vc nos braços e fomos muito bem recebidos, mas nitidamente éramos os únicos desconhecidos da comunidade escolar. 
Antes que a narrativa começasse, conseguimos captar algumas informações sobre como fazer sua inscrição. E então o evento se iniciou.
Com uma voz suave e cheia de emoção, a narradora foi expondo ao público os 34 anos de uma bela história de trabalho e colaboração. Através da narrativa de diversos participantes dessa história, foi compondo uma linda viagem no tempo que encantou e emocionou a todos. E clima de amor que pairava no ar. Tive a impressão de me sentir abraçada e aconchegada por aquelas pessoas de alguma forma. Ao final, todos levantaram e cantaram uma linda canção, que arrancaram algumas lágrimas minhas. Quanta emoção, filha’ naquele momento, em prevê, agradeci à Deus por nos levar até aquele local e pedi sabedoria para conseguir captar as mensagens que a espiritualidade nos envia para a sua educação. De alguma forma, filha, eu sinto que os caminhos nos levaram até lá, para que vc tivesse a oportunidade de estudar em um local tão mágico quanto esse. É como se vc tivesse uma missão importante por aqui e, para potencializar a possibilidade de cumpri-la, estamos sendo intuídos a todo o tempo de buscar caminhos não muito tradicionais. Foi assim com a questão do parto. E está sendo assim na escolha da escola, que ainda vai demorar um bocado para acontecer. O fato é que eu e seu pai saímos de lá encantados, com uma vontade latente de que você desenvolva sua vida escolar naquele local sagrado, naquele santuário! Pode parecer besteira, mas é isso que sinto. E embalados por essa noite de tanto amor e sentimento de pertencimento, é que desejo te ver num futuro próximo, de botinhas, remoendo a terra e subindo nas árvores, cantando aquele bela canção que emocionou nossos corações.

2 meses (escrito em 06/08)

Filha, 
Vc dorme nos meus braços e pela primeira vez, dormiu por 6 horas seguidas. Mas tb foi duro te colocar pra dormir e foi assim nas últimas noites, o que leva um pouco a nossa paciência e energia. Ontem seu pai cansou e eu é que consegui te adormecer, com carinho e muito peito.
Na sexta você fez 2 meses. Teve festinha e até convidados. Gosto de comemorar esses Marcos e me divirto com cada detalhe. Mas achamos que é um pouco ruim pra você. Então talvez tenhamos que repensar isso.
E o que falar desse mês? Ah....ele nos desperta o nosso melhor e nosso pior. Me trouxe à tona um medo surreal de tudo: de vc cair, de falhar, de vc morrer, medo dessa dependência tao forte: além da sua em relação à nos, a minha em relação à você. Ao mesmo tempo, que me fez perceber o quanto ainda tenho que desenvolver a minha paciência. Levou um pouco a minha identidade e minhas certezas de que querer estar com você integralmente nesse primeiro ano. Eu tenho pensado que talvez não seja saudável pra nós três. E me fez questionar tb o meu propósito e qual caminho seguir. Me fez revisitar algumas expectativas porque achei que meus sentimentos seriam diferentes. Mudou a minha relação com seu pai e nossa visão de futuro. Acho que simplesmente mudou tudo! 
Mas é tão mágico, filha. É incrível ter a oportunidade de desmoronar tudo para reconstruir.
Nesse mês eu vou começar um processo de coaching voltado pra mães. Acho que será um processo importante para eu me redescobrir e me reinventar, usando essa força tão intensa que renasce de mim. Será algo importante pra nós, pra nossa família.

O que eu observo em você 5

  Filha, O tempo está passando mais rápido o que nossa consciência pode perceber. Aqui pela floria, acabamos e viver a experiência o nosso...