terça-feira, 24 de março de 2020

9 meses (escrito em 14/03)

Filha,
Há 12 dias vc completou 9 meses e já superou os 280 dias na Terra, o que significa que já está mais dias fora da minha barriga do que dentro. Isso tem um grande significado pra todos nós.
Seguimos aprendendo a cada dia e tentando transformar esses seus 1000 dias em momentos especiais, de aprendizado, descobertas e muito amor.
Alguns dias são bem difíceis, seja pelo cansaço que nos consome, seja pelas nossas dificuldades de lidar com nossas próprias sombras. Outros são maravilhosos, repletos de aconchegos, risos e gratidão. 
Você já mostra certos traços de personalidade e querer. Já nos encanta com seu sorriso e nos derrete com seus trejeitos lindos. Fecha os olhos, respira como bichinho, levanta com toda a força, engatinha pela casa com agilidade, coloca o dedo em todos os buraquinhos que encontra. Cada nova descoberta sua é um mar de felicidade para mim, por ver que a cada dia você cresce no mundo e se desenvolve e por estar acompanhando de pertinho todo esse processo. 
Mas a memória vacila muitas vezes. Por isso procuro fazer registros desses momentos, para que, um dia, possa rememorá-los com toda a minha alegria e meu amor. 
Seguimos vivendo juntinhas a cada dia. E estarei sempre aqui por você e pra você.

Te amo, minha filha! Explore o mundo e cresça devargarzinho, sendo você mesma e se conectando com o seu mais puro amor.

Fusão emocional (escrito em 29/02)

Filha, 
estou lendo um livro maravilhoso chamado “A maternidade e o encontro com a própria sombra”. Ele fala de fusão emocional e desses processos tão intensos que ocorrem nesse período que estamos vivendo juntas agora. É bastante aflitivo saber que o meu eu interior impacta diretamente em você. Hoje foi a demonstração clara que como isso acontece. Tive um dia difícil. Dormi pouco, preocupada com a sua febre, que foi reação da vacina. Passei o dia esgotada tentando conciliar as suas demandas (que foram intensas) e as minhas próprias necessidades. Chorei um bocado. Graças a Deus consegui não descontar em você nenhum desses momentos de desequilíbrio. Mas doeu muito em mim! Fui me encontrar com minha criança ferida e é sempre duro perceber o quanto as minhas necessidades não eram atendidas na minha infância. Nem sequer respeitadas! Fui me moldando a vontade dos meus pais e aceitando que a vida era assim, só pra receber o amor deles. É duro perceber tudo isso agora. Mais difícil ainda é refletir sobre quantas pessoas no mundo estão voltadas para esse olhar e o quanto isso é sério. Talvez pouquíssimas!
E por alguns instantes percebi o quanto é natural reproduzirmos essas nossas necessidades não atendidas em você. Parei e pensei que não quero isso. Talvez já tenha feito muito disso, talvez eu não tenha respeitado o seu ritmo e suas necessidades. Mas eu quero te dizer que daqui pra frente vou me esforçar mais para ler as suas necessidades, para respeitar o seu ritmo e o seu querer. Quero sempre validar os seus sentimentos, mesmo que não possa atende-los porque vc precisa de limites. Mas quero que você cresça conectada com esses sentimentos e que saiba o que está sentindo. Porque eu, aos 38 anos, quase nunca sei. E além disso, não sei expor meus sentimentos. E aí eles explodem, algumas vezes, em você.

Quanta falta de controle emocional! Quanta dificuldade para entender o que sentimos e o que precisamos!

É duro filha. Você agora dorme no meu colo e só consigo sentir culpa e remorso por falhar tantas vezes. Na esperança de que suas memórias sejam mais dessas minhas tentativas, do que dos dias ruins.

A ira (escrito em 20/02)

Filha,
Choro compulsivamente nesse momento, enquanto você dorme nos meus braços. Eu lamento tanto, até o fundo da minha alma. Mais uma vez me irritei com você e não tive controle emocional para lidar com a situação. Você começou numa fase difícil em que fica se mexendo sobre o trocador. Muitas vezes, por mais irritado que estejamos, eu consigo convencê-la e tudo flui bem. Hoje não! Estávamos nos preparando para dormir e fui te trocar porque te percebi incomodada. Estávamos sozinhas em casa. Você se mexia e chorava, fazendo aquela pirraça prévia de sono acumulado. Eu fui ficando irritada e fui percebendo o descontrole chegando. Parei, respirei, deixei as coisas como estavam. Percebi naquele instante que era inútil tentar mais porque a irritação iria me vencer. Depois de respirar e me acalmar, tentei novamente. Em vão! Resolvi dançar para nos reconectarmos. Aos poucos você foi se acalmando e eu também. Conversei com vc e expliquei o que precisava fazer. Nova tentativa e você voltou a se movimentar e a chorar. Nesse momento ela veio: a ira. Não consegui me conter e com os olhos latejantes, gritei “estou te pedindo”! Senti meu corpo todo tremer. Imediatamente veio o arrependimento. Olhei pra vc, com seus olhos me fitando assustados. Veio a consciência e comecei a chorar. Te abracei, na intenção de voltar no tempo e apagar todo esse episódio, esse descontrole desnecessário. Já não era possível! Chorei. Muito! Lamentei a minha perda de controle e a dificuldade. Por que não consigo ter o controle que eu gostaria? Por que racional ente entendo o que é preciso fazer, mas emocionalmente as coisas não acontecem dessa forma? Por que o dia-a- dia nos tira essa capacidade de olhar os momentos de forma mais leve? Tantas questões, filha.

Hoje dormirei com meu coração dilacerado de culpa, na tentativa de acolher a minha criança e ajudá-la a se aceitar de forma mais profunda.

No mais, te peço desculpas pelo meu descontrole. Mais uma vez!

O que eu observo em você 5

  Filha, O tempo está passando mais rápido o que nossa consciência pode perceber. Aqui pela floria, acabamos e viver a experiência o nosso...