Oi, Filha.
Estamos no início do mês de novembro e o fim do ano se aproxima. Eu e seu pai estamos vivendo um ciclo de expansão, após tantos meses em contração, diante de uma pandemia mundial que mudou a vida de todos. Estamos nos preparando para mudar para uma casinha, cercada de natureza, que nos enche de alegria e de planos. Faremos isso por nós e por você, que já não cabe mais num apartamento apertado. Queremos ver você crescer junto à natureza, imersa, pisando na terra, plantando verduras, comendo fruta do pé. Ouvindo o passarinho, subindo na árvore e contemplando o pôr do sol. E está sendo maravilhoso conseguir te proporcionar isso agora, antes de você completar os seus 1000 dias.
Mas não vim aqui falar sobre isso! Queria compartilhar uma experiência que vivemos juntos na semana passada e que, apenas agora, tive um tempo para vir aqui te contar.
Eu e você passamos 1 semana em Araras, junto com uma grande amiga de faculdade, suas filhas gêmeas (já com 4 anos completos) e a mãe dela. Foram dias ótimos, de contato com uma natureza exuberante, de descanso (e também cansaço), de mudança de rotina. Mas diria que foi, sobretudo, dias de muito aprendizado. Preciso te contar que tive diversos momentos de catarse, em que nossa mente, repentinamente, resolve nos mostrar algo lá no fundo. Conto aqui para você:
1) Sobre como os adultos destroem a essência infantil
Essa semana convivi com outros adultos. Mães, tios, avós e também funcionárias de apoio. Me pus a observar as nossas falas de adulto, nossos momentos de punição, de diálogo, de acolhimento. Fiquei legitimamente impressionada com a nossa capacidade de não compreender vocês crianças. Da quantidade de "nãos" que distribuímos sem nem avaliar o objetivo. Das inúmeras vezes que transferimos para vocês nossas próprias questões pessoais, traumas, crenças limitantes, medos. Foi chocante, mesmo! E não sou vítima. Também me incluo nesse grupo de adultos que fazem isso!! Mas é triste demais perceber que, naturalmente, vamos afastando vocês dessa essência tão maravilhosa. Fico me perguntando de onde vem essa crença de que as crianças são seres que precisam ser "treinados". Ouvi e vi tantas coisas: chantagem emocional, comparação, disciplina rígida, não validação dos sentimentos e muito mais. Saí desses dias com a visão do quanto é difícil ser crianças nesse mundo.
Foi uma experiência importante para que eu tb consiga parar e refletir, antes de falar ou agir de uma forma tão desrespeitosa e "podante".
2) Sobre a dificuldade de "fazer diferente" em um ambiente desfavorável
Eu e seu pai estamos buscando nos conhecer melhor a cada dia, compreender nossas feridas de infância para curá-las e não transferi-las para você. É um processo longo, difícil, mas muito muito maravilhoso. No entanto, essa semana percebi o quanto é difícil você se manter no caminho da educação consciente, quando o ambiente que o cerca desfavorece isso. Principalmente no meu caso, que fui educada completamente desconectada da minha essência e que desenvolvi um medo frequente de ser julgada. Fica ainda mais difícil manter seu objetivo e o meio parece que te empurra para o comportamento desrespeitoso.
Acho que não foi à toa que eu e seu pai escolhemos educar você aqui em Juiz de Fora, longe do contato com tanta gente que amamos, mas que eu entendo que ainda não estão preparados para essa quebra de paradigma. E talvez por isso, a gente se sinta tão sozinho. Porque não é fácil criar uma rede de apoio que esteja conectada com os mesmos propósitos que nós, que estejam dispostos a olhar para dentro antes de educar o outro. Sinto falta de uma rede (e talvez por isso eu tenha essa sensação de não pertencimento) que vibre nessa mesma energia e que tenha coragem para mudar, a fim de preparar a nova geração.
3) Sobre a facilidade que temos para julgar
Em muitos dias dessa semana, me vi numa posição desconfortável. Ora porque ouvia o julgamento alheio, ora porque eu me via numa reflexão e também me questionava se eu não estava julgando. Isso é um equilíbrio que ainda não consegui atingir. E já tive muitas catarses, minha filha, com essa questão do julgamento. Porque isso fez parte da minha infância, faz parte das minhas feridas que ainda sangram, intensamente. Estou no caminho, na busca de tentar curá-las. Mas muitas vezes me sinto um pouco incapaz de conseguir. É algo que está tão entranhado que eu sinto que faz parte de mim. Mas não quero mais. Quero e preciso me livrar desse estigma de julgamento, seja como algoz, seja como vítima.
Depois de 1 semana, muito aprendizado ainda está reverberando por aqui. Sigo tentando, filha. Sigo tentando!!