Filha,
Este episódio eu escrevi como parte da minha Biografia, processo que estou empenhada em fazer como parte do meu processo de autoconhecimento e cura.
Que ele te ajude a compreender a minha humanidade e alguns dos processos descontrolados que vivi como sua mae. Te amo!
"Hoje é um desses meus dias. Estou me achando uma mãe terrível, descontrolada, vingativa e sem noção. Estamos de mudança e estou na fase da TPM do meu ciclo. Para além das expectativas, o medo do que está por vir e da bagunça espalhada pelos míseros 50 mt2 (fato este que me desestabiliza mesmo), Clarice está com o hábito (péssimo, de acordo com meu julgamento) de pedir água e jogá-la no chão imediatamente. Ontem consegui ser sutil ao explicar que ela não poderia fazer isso porque o chão fica molhado e podemos escorregar e etc...etc...Mas hoje, em meio ao caos instalado, amparado por duas tentativas frustradas de fazê-la dormir o soninho da manhã, não consegui me controlar. Dei uma sacudidela nos ombros dela e a empurrei para dentro do quarto, fechando a porta imediatamente.
Já logo em seguida, percebi a "burrada" que fiz. Mas ainda com o sentimento de raiva me dominado, entrei no quarto e tentei amamentá-la. Mas a ira ainda estava ali. E fui percebendo que, se não parasse a amamentação naquela hora, seria capaz de "abrir a caixa de pandora" e descontar na minha filha todo o cansaço, dificuldades de lidar com as próprias emoções e necessidades não atendidas que já arrasto há algumas semanas (ou talvez meses). Me pus a chorar e aí resolvi coloca-la em frente a uma tela, por considerar que os prejuízos desse ato (apesar dos pesares) seria menor do que o meu ímpeto de raiva.
Fiquei um tempo sozinha da sala para respirar. Ainda chorando me pergunto: Por que ainda não sou a mãe que eu gostaria?
E tem tanta reflexão, crenças limitantes, questões internas nesse questionamento, que seria assunto para 1 década de terapia "hard core".
Ontem mesmo eu pensei sobre isso! Hoje temos acesso a teorias maravilhosa e o apoio de profissionais que nos trazem a reflexão sobre feridas emocionais, sobre a posição de vítima, narcisismo materno, codependência, neurociência infantil e tal. E a criança tem sempre razão!
Ultimamente, nesse meu portal da maternidade, tenho lido e feito muitos processos terapêuticos em que concordo e apoio todo essa visão da autoeducação como caminho único para um maternar mais leve e consciente. Mas por que "caralho" aquilo que lemos, aprendemos e digerimos racionalmente, não se torna um hábito consciente no dia-a-dia?
Eu mesma fiz a pergunta, e me dei uma resposta.
É porque nossas marcas da infância falam muito mais por nós, do que imaginamos. Essas sombras que estão lá, naquele baú escondido do nosso subconsciente, age mais rápido do que o lado racional do nosso cérebro pode prever. É porque para dar o que não tivemos (e nem tínhamos noção) precisamos mover montanhas e respeitar os nossos ritmos. Respeitar a nossa história, nossas derrotas e nossas vitórias. Valorizar as lutas diárias e a jornada, ao invés de imaginar um pódio de mãe ideal.
Isso eu entendo. Racionalmente! Mas não deixo de me achar uma péssima mãe por isso!!
Ainda na sala, fui me nutrir de materiais, através das redes sociais. A ementa foi pior que o soneto. Me vi lendo reflexões de mulheres mães que me inspiram e que estão realizando muito, seguindo e intuindo a sua essência e sendo luz pro mundo. E fazem isso com respeito a si mesmas e aos seus limites. Li também uma outra mulher inspiradora que colocou uma dedicatória muito amorosa pelo aniversário da mãe.
Foi aí que me senti mesmo o "coco do cavalo do bandido!!"
Estou eu aqui lutando dia a dia para não "socar" a minha criança. E essas mulheres maravilhosas vêm para estampar na minha cara um equilíbrio pleno e gentil, de ser mãe, profissional e mulher?! Ó céus!!! Chorei mais e resolvi deixar as redes sociais de lado.
Tentando catar os cacos da minha auto-estima pelo chão, pra tentar me recompor e "dar cabo" da maldita mudança, me vi pensando que ao menos 1 passo eu consegui dar. Diante da dificuldade, consegui pedir ajuda ao pai da criança e marido. Mandei uma mensagem e disse que eu não daria conta de "segurar" a barra sozinha e que, teríamos que rever os planos e papéis na mudança, em função disso. Disse que estava naqueles dias de "vazio emocional" e que não era capaz de oferecer o que não tinha nem pra mim.
Aplausos de pé!!! Isso é um grande passo para alguém que, há uns meses atrás, teria sofrido sozinha e colocado a capa de guerreira pra fazer acontecer.
Não foi fácil, mas consegui estabelecer o meu limite. E pedir ajuda!!
Eu ainda me vangloriava dessa façanha quando minha filha desistiu do desenho no tablet e pediu para abrir à porta. Ao abrí-la, já me sentindo o "cocô do cavalo do mocinho", vejo o sorriso lindo dela, me recebendo de forma acolhedora. Chorei mais, dessa vez sentindo uma certa gratidão por esse ser de luz que me ama incondicionalmente, apesar de tudo.
Abraçadas e amamentando, eu pedi desculpas. Disse que eu entendia a agitação dela e que estava tudo bem. Que ela não era a culpada pelo meu desequilibrio emocional e que eu não estava num bom dia. Que eu me arrependia pelo rompante emocional e que eu estava tentando melhorar a cada dia, mas que a estrada é longa e, que por sermos humanos, sempre iremos falhar.
Minha filha dormiu, nos meus braços, antes mesmo que eu completasse meu desabafo. Coloquei-a na cama e vim escrever, para organizar minhas idéias e o coração. Quem sabe assim, ela, no futuro, possa processar mais rápido todo esse aprendizado que estou absorvendo na teoria. Mas que precisa ser incorporada na prática a partir de muito suor, lágrimas e desequilíbrios.
Mas isso não é ser humano?"
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