sábado, 15 de maio de 2021

Maternidade nua e crua

Filha, 

Hoje eu quis lhe escrever uma carta, que também é um pedido de desculpas (mais um). Essa noite tive mais um surto de raiva e gritei com você às 4:20 da manha. Fui desrespeitosa e nada justifica minha atitude. Mas preciso lhe dizer que sou humana, e me esforço todos os dias para ser uma boa mãe. Só nao consigo ser melhor do que isso, do que estou me esforçando. 

É cansativo, filha. Ser mãe tem um cansaço exagerado, que extrapola as nossas vísceras e dá vontade de chorar, quase todos os dias. No nosso caso, então, está potencializado pela ausência de rede de apoio e por uma pandemia que já tirou muitas vidas e também nossas esperanças. 

Passamos a quinta e sexta-feira juntinhas, de 8:00 às 18:00, somente eu e você. Tive alguns momentos de impaciência e angustias, mas consegui usar meus artifícios para me regular, sem descontar em você, que nao tem nada a ver com meus processos. Terminei a sexta feira me sentindo uma super mãe, pelo equilíbrio que consegui e também pelo jogo de cintura de lidar com os momentos mais desafiadores. Mas eis que de noite, nao dei conta de impedir o meu cansaço, as suas mamadas (que voltaram a ser como quando você ainda era recém nascida), minhas frustrações e sua falta de vontade para dormir. E está bem difícil conseguir conciliar essa díade sono-mamadas, que tem nos deixado exauridos e esvaziados. 

E tudo isso, filha, tem despertado em mim uma raiva muito intensa, uma frequente frustração pelos espaços que quero abrir e os movimentos que quero fazer. Nao estou sabendo lidar com tudo, e percebo que a leveza dos dias (assim como os pequenos milagres), estão se esvaindo. Me sinto meio mecânica, sem vontade de brincar com você, ávida por um tempo longo pra mim, pra catar os caquinhos que insistem em se espalhar no chão. 

Pela manha, ainda acordei com raiva e as emoções só se dissiparam depois que eu participei da sessão terapêutica. Mas seu pai saiu para trabalhar e eu continuei cuidando de você, tentando equilibrar a minha saúde mental e a sua. Sobrevivemos em paz durante a tarde. Mas a noite você retomou os pedidos frequentes pelas mamadas e a raiva voltou à cena. Desejei imensamente que você dormisse rápido e chorei, pedindo desculpas mais uma vez pelas minhas dificuldades. Acabei por soltar uma frase, que assustou seu pai: "Hoje eu nao queria ser mãe". E, enquanto você já dormia, procurei te explicar essa minha fala. Nao querer ser mãe, nao diminuiu meu amor por você. Eu amo você e isso nao irá mudar. Mas esse formato de maternidade, nessa sociedade patriarcal, machista que delega os cuidados dos filhos para a mãe e pesa nos julgamentos, é muito sufocante. Esse modelo do cuidado é opressor para as mulheres e nao deveria ser dessa forma. É preciso equilibrar minimamente essa balança para garantir que as mães tenham uma saúde mental e que se sintam minimamente plenas para educar com respeito. O peso, as expectativas e os julgamentos que se fazem para nós mães, é muito cruel e adoece. E eu gostaria, filha, que você pudesse ser mãe (caso queira) numa sociedade diferente dessa que temos hoje. 

A vontade de voltar a trabalhar, para reintegrar essa parte de mim que ficou adormecida nesses últimos anos, está cada vez mais latente. Talvez por isso minhas expectativas e necessidade de tempos maiores estejam tao frequentes. E tenho pensado em trabalhar em algo que ajude nesse processo de amenizar essas dores maternas. Mas me vejo sem tempo algum para abrir esse espaço e começar a agir. Fica tudo no campo das idéias, o que me causa ainda mais angustias e ansiedades. E minha mente permanece tagarelando aqui, o tempo todo. 

Foi nesse contexto, Filha, que sucumbi à ira e aos desrespeito. Que você possa me desculpar por mais esse tropeço, na certeza de que meu amor por você é imenso. E que se sinta livre também par sentir tudo isso, se um dia resolver trilhar esse caminho da maternidade. Porque tudo isso faz parte da nossa humanidade e precisamos muito olhar pra isso.

O que eu observo em você 5

  Filha, O tempo está passando mais rápido o que nossa consciência pode perceber. Aqui pela floria, acabamos e viver a experiência o nosso...