Mãe,
Escrevo essa carta como meio de me expressar e quebrar esse silêncio de uma semana pois já ensaiei algumas conversas, mas ainda não me sinto pronta para fazê-la olho nos olhos. Peço desculpas e reconheço essa minha dificuldade, pois entendo que seria mais adequado conversarmos pessoalmente. No entanto, entre o medo e a dificuldade de dialogar e a vontade de esclarecer certos pontos (a fim de quebrar esse ciclo de colocar a "poeira para debaixo do tapete"), prefiro dar um passo, ainda que seja pequenino, para abrirmos o nosso coração sobre a experiência do último sábado.Primeiramente quero que você saiba: eu não gostei do curso! Achei o conteúdo raso, desestruturado e não imaginei que a Fadynha fosse destilar pelo curso as suas revoltas contra o mundo e contra as dores que ela já vivenciou (cabe ressaltar que, apesar de eu ter pessoalmente muitas criticas sobre o perfil dela, só ela sabe o quanto sofreu nessa sociedade para conquistar certos espaços e levantar bandeiras importantes, ainda que radicais, para a questão do parto humanizado. É por isso que não nos cabe julgar, mas respeitar). Enfim, foi um curso ruim! No entanto, frente àquela situação eu fiz uma escolha: filtrar aquilo que eu poderia aproveitar como aprendizado (e tive alguns, porque o aprendizado sempre existe) e ignorar as falas repletas de rancor e radicalismo. Dessa forma, procurei fazer uma limonada dos limões que tinha porque isso estava ao meu alcance.Mas acho que a experiência foi muito pior pra vc e peço desculpas por isso, pois não era essa a minha intenção. Talvez você não estivesse preparada para sentir certas provocações ou não quisesse, naquele momento, ouvir opiniões divergentes. E tudo bem! Mas precisamos falar sobre isso. O fato é que minha intenção quando a chamei para fazer o curso era aproximá-la desse meu processo de maternidade e fazê-la sentir parte disso, para além das questões práticas e materiais. Eu queria que você se sentisse integrada a esse mundo maravilhoso (e de grande responsabilidade) que inicio tardiamente após muita luta e muita vontade. Afinal, da mesma forma que eu me preparo para renascer no papel de mãe, você também renascerá no papel de avó. E nenhuma das duas sabe o que isso significa, pois estamos vivenciando isso pela primeira vez nessa encarnação!Infelizmente o processo foi outro e ao invés de aproximação, houve repulsão. E tudo bem, também! Mas entendo que esse momento mútuo é tão especial que merece toda a nossa atenção e nosso esforço para pensar, refletir, agir e transformar.Você foi mãe em um outro contexto social: era jovem demais; vivia uma realidade difícil de conflitos e incertezas; você não teve apoio familiar, nem oportunidade para partilhar suas dificuldades com alguém, nem teve acesso às milhões de informações que hoje estão disponíveis sobre todos os assuntos inerentes à maternidade e educação. Além disso, provavelmente você não fez uma escolha de ser mãe, mas esse papel lhe foi imposto de alguma forma, pelas circunstancias da vida e pelos passos que você trilhou sem muita consciencia. E tudo bem, porque nesse processo nem eu e nem ninguém está te julgando ou te cobrando uma postura diferente. De forma alguma! Muito pelo contrário! A minha opinião sempre foi (e continua sendo) de muita gratidão pela mãe que você foi, pelo exemplo de força e independência quenos transmitiu e pela abnegação que teve para nos criar ao longo desses anos. Por muitas vezes eu penso que foi um grande milagre você conseguir ser uma mãe tão maravilhosa diante de tantas dificuldades que vivenciou e os exemplos que teve em sua família. No fundo foi um milagre promovido pelo seu próprio esforço e vontade, da qual serei eternamente grata.Só que agora é diferente, mãe! A maternidade chega na minha vida por uma escolha pessoal e uma vontade enorme de educar um ser! Além disso, a Clarice vai renascer em um contexto familiar completamente diferente (e isso inclui toda a nossa família e a do Leandro) e num planeta muito mais evoluído e conectado. Por isso, apesar de ainda não existir uma escola para aprender a ser pais (apesar de ser instintivo, isso é muito importante), é possivel hoje a gente se preparar melhor, ler, estudar, "educar-se para educar", a fim de se comprometer com a missão que está por vir. E eu estou nesse processo, nessa busca, de me auto-conhecer, de estudar, de ler, de me revisitar para que eu seja a minha melhor versão, a fim de ajudar a Clarice a ser a sua melhor versão. Toda essa preparação vai me impedir de errar? Claro que não!!!! E nem tenho essa pretensão!!! Eu vou falhar (e muito) nesse processo, mas espero também aprender com esses erros e me reinventar porque entendo que educar um ser é a missão mais bonita, mas também a mais dificil de um ser humano. E nessa nova jornada, é provável que eu aprenda mais do que ensine e estou entusiasmada com isso! E no final das contas, tudo vai ser uma tentativa! E sabe o que é importante para mim nesse momento? Que além do amor (sim, porque nesse processo de educação, o zelo, os erros, as opiniões são sempre focados no amor e no bem estar do outro), prevaleça também o respeito, sem julgamentos e sem críticas destrutivas. De todas as partes e todos os lados! Porque se for dessa forma, esse processo pode ser lindo para toda a nossa família. Ninguém está obrigado a concordar comigo, claro que não! E nem quero que se calem ou deixem de dar opinião. Pretendo que essa vivência seja intensa e participativa para todos nós. Mas é importante respeitar a minha decisão (e também do Leandro) de forma a permitir que a gente viva a nossa própria experiência e colha o resultado das nossas proprias falhas, porque são essas experiências que nos tornarão "Pais", assim como vcs foram. Da mesma forma, nós também queremos respeitar a cada um que fará parte dessa missão(avós, tios, primos) sem julgamento e sem críticas destrutivas. E respeitar não é concordar: é aceitar; é compreender; é dar opinião, mas entender caso o outro queira seguir outro caminho, é aproveitar a oportunidade para refletir e, quem sabe, até se reinventar, mudando o ponto de vista. Enfim, é ter compaixão e encorajar o outro, ainda que esta não seja a nossa crença.Por isso, mãe, que possamos dialogar mais sobre o nascimento e educação da Clarice, que você se sinta à vontade para participar ativamente desse processo (porque será bem vinda), que aproveite essa oportunidade para se autoconhecer e se redescobrir nesse novo papel de avó, e que posssamos trilhar essa caminhada juntas sempre com muito amor, respeito e empatia.
Da sua filha, Rosane
Para esclarecer, listo aqui alguns valores e objetivos que eu e Leandro pretendemos seguir na educação da nossa filha, sempre com o intuito de tentar (ainda que possamos fracassar):
1) educar com afeto, para que ela se sinta amada não só pelo cuidado prático da vida, mas também com afetividade física de forma que ela se sinta acolhida sempre;
2) Autoestima e independência, para que ela desbrave o mundo, experimente e não tenha medo de se lançar na vida. Para que ela tenha coragem de viver! Será permitido cair, se sujar, explorar sem restrições. Esse é um dos motivos pela escolha de um quarto montessoriano, em que existem evidencias cientificas do melhor desenvolvimento da criança. Isso não é besteira. É adequação do ambiente para ajudá-la nesse processo;
3) Disciplina com afeto, porque os limites são importantes para ela se amar e interagir de forma saudável com o mundo;
4) Presença, para que possamos observar suas tendências, auxiliá-la com suas dificuldades e ajudá-la a se tornar um ser melhor, através do desenvolvimento das suas potencialidades;
5) Educação baseada no Ser e não no ter- Não quero que ela tenha milhares de brinquedos e coisas e que cresça num ambiente extremamente materialista. Eu e Leandro estamos em um processo de minimalismo e desapego desde o ano passado e pretendemos educá-la nesse contexto através dos nossos exemplos;
6) Preocupação com o meio ambiente- Queremos que ela viva num planeta um pouco melhor e pretendemos fazer a nossa parte, mudando pequenos hábitos diários para ajudar esse meio ambiente tão degradado. A escolha sobre tentar não usar fralda plastica é um desses objetivos. Reduzir o consumo de embalagens plasticas tb. E ao longo do caminho tentaremos sempre mudar algum hábito, em suaves prestações.
7) Reduzir a possibilidade dela ter alergias- eu sempre sofri muito com alergias respiratórias e não gostaria que ela passasse pelo mesmo. Por isso vou tentar (e tentar mesmo porque sei que pode não dar certo) não utilizar muitos produtos químicos ou coisas que tenham um cheiro desproporcional, ao menos no primeiro ano de vida. Isso inclui colonias, sabonetes com muitos corantes, lenços umedecidos e outros itens que hoje considero desnecessário. É claro que isso será sem radicalismo! Quando necessário utilizarei produtos com aromas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário