Filha,
Estamos na fase de adaptação a você e de você ao mundo...nosso mundo. Os dias são lindos e negros ao mesmo tempo. É um amor que se expande, ao mesmo tempo que um medo e um cansaço incrível aparecem. Na primeira semana recebemos ajuda da vovó Marise, que cuidou da alimentação da mamãe e foi empática com a questão da dor na amamentação. Acho que ela se viu ali tb entre a dor e a vontade de amamentar.
Nessa primeira semana, mamãe chorou algumas vezes, seja de dor no peito ou pela sensação da solidão. E fiquei brava com seu pai em alguns momentos. Ele manteve o jeito debochado e não soube respeitar alguns momentos meus. Mas conversamos e as coisas melhoraram.
Na segunda semana, tivemos a ajuda da vovó Glorinha. Foi uma ajuda importante (mas diferente).
Ela ficou com vc algumas vezes para que eu pudesse tomar um banho mais prolongado ou dormir algumas horinhas seguidas.
Essa semana estamos somente nós 3 e seu pai tem estado fora de casa pois o trabalho está exigindo. E ele precisa focar nisso para garantir nosso sustento e permitir que eu fique cuidando de vc o tempo que for necessario. Por isso, passamos a maior parte do tempo eu e vc, apenas. E começo a ficar preocupada pois vc exige um bocado de mim, já que quer ficar o tempo todo mamando ou “chupetando” meus seios. Sei o quanto é difícil pra vc estar aqui fora e estou tentando ser empática. Mas pra mim tb é difícil essa plena dependência e esse grude 24h por dia. Só nós duas sabemos o quanto é difícil essa mudança de vida.
Não estou conseguindo fazer as coisas da casa para manter nosso dia-a-dia minimamente organizado. Além disso, tem a privação do sono. Nas últimas noites dormi sentada com vc em meus braços, porque essa é a única forma de você dormir pouco mais de 1:30 direto. Aí às vezes bate um certo desespero, uma sensação de impotência e falta de controle da minha própria vida, como se eu já não fizesse mais escolhas. Entenda que não é falta de amor, apenas um sentimento de adaptação à nova vida que eu tanto queria.
Vou fazendo as coisas da casa à prestação e, apesar de angustiante, também estou aprendendo a controlar a minha ansiedade e a priorizar melhor as coisas. Vc acaba de chegar e já estou aprendendo muito com vc, filha.
Mas é um período difícil para todos nós.
Para a mãe (talvez você seja uma um dia), é um período um tanto solitario é só quem é mulher e mãe consegue entender.
É um momento em que muitos sentimentos se misturam. Em alguns dias senti muita vontade de chorar, e chorei. Sinto uma sensibilidade à flor da pele, como se qualquer coisa me atingisse. Atrelado a isso também existem alguns pensamentos de duvida, medo da capacidade de te educar, e da sensação de que agora existe um ser no mundo que depende de mim e que (ao menos por enquanto) me demanda toda a atenção e dedicação. Isso é maravilhoso, mas dá muito medo. É como se nunca mais eu fosse ser independente novamente. Como se tivesse renunciado aos meus momentos de solitude.
Existe também a dor física e de mudanças não esperadas no corpo.
No meu caso, por exemplo, fizemos um parto normal que foi bem tranquilo, mas não imaginava o inchaço (e incômodo) por tanto tempo e que fosse desenvolver uma hemorroida. Passei uma semana um pouco pensativa e introspectiva sobre isso, pois é algo que ninguém fala no seu livros e nas palestras.
É para completar, por vezes me vem alguns pensamentos psicóticos: imagino vc caindo no chão, penso em vc ficando doente, penso em varias coisas ruins acontecendo com você e percebo o quanto o meu coração fica apertadinho, tentando imaginar como eu agiria em determinadas situações.
Enfim, filha, é uma ausência de controle pleno. Quando nos tornamos mães (ou pais) perdemos o controle sobre nossas próprias vidas e nossos sentimentos, pois existe algo muito forte ali fora, que nos desafia o tempo todo.
Esse tal de puerpério é uma fase difícil mesmo. É um momento de muitas transformações e não somos suficientemente preparadas para isso. Mas entendo que isso é uma fase e que vai passar. E por você viveria esses conflitos quantas vezes fossem necessárias. Porque a alegria de observar vc dormindo (ali perfeitinha), de acariciar sua testa, de observar suas caretas.....tudo isso não tem preço. E nossa jornada juntas está apenas começando. Muito maus e bons momentos virão pela frente. Mas tudo bem, afinal, mar calmo nunca fez bom marinheiro!