domingo, 30 de junho de 2019

Puerpério

Filha,
Estamos na fase de adaptação a você e de você ao mundo...nosso mundo. Os dias são lindos e negros ao mesmo tempo. É um amor que se expande, ao mesmo tempo que um medo e um cansaço incrível aparecem. Na primeira semana recebemos ajuda da vovó Marise, que cuidou da alimentação da mamãe e foi empática com a questão da dor na amamentação. Acho que ela se viu ali tb entre a dor e a vontade de amamentar.
Nessa primeira semana, mamãe chorou algumas vezes, seja de dor no peito ou pela sensação da solidão. E fiquei brava com seu pai em alguns momentos. Ele manteve o jeito debochado e não soube  respeitar alguns momentos meus. Mas conversamos e as coisas melhoraram.
Na segunda semana, tivemos a ajuda da vovó Glorinha. Foi uma ajuda importante (mas diferente).
Ela ficou com vc algumas vezes para que eu pudesse tomar um banho mais prolongado ou dormir algumas horinhas seguidas.
Essa semana estamos somente nós 3 e seu pai tem estado fora de casa pois o trabalho está exigindo. E ele precisa focar nisso para garantir nosso sustento e permitir que eu fique cuidando de vc o tempo que for necessario. Por isso, passamos a maior parte do tempo eu e vc, apenas. E começo a ficar preocupada pois vc exige um bocado de mim, já que quer ficar o tempo todo mamando ou “chupetando” meus seios. Sei o quanto é difícil pra vc estar aqui fora e estou tentando ser empática. Mas pra mim tb é difícil essa plena dependência e esse grude 24h por dia. Só nós duas sabemos o quanto é difícil essa mudança de vida.
Não estou conseguindo fazer as coisas da casa para manter nosso dia-a-dia minimamente organizado. Além disso, tem a privação do sono. Nas últimas noites dormi sentada com vc em meus braços, porque essa é a única forma de você dormir pouco mais de 1:30 direto. Aí às vezes bate um certo desespero, uma sensação de impotência  e falta de controle da minha própria vida, como se eu já não fizesse mais escolhas.  Entenda que não é falta de amor, apenas um sentimento de adaptação à nova vida que eu tanto queria. 
 Vou fazendo as coisas da casa à prestação e, apesar de angustiante, também estou aprendendo a controlar a minha ansiedade e a priorizar melhor as coisas. Vc acaba de chegar e já estou aprendendo muito com vc, filha.
Mas é um período difícil para todos nós.
Para a mãe (talvez você seja uma um dia), é um período um tanto solitario é só quem é mulher e mãe consegue entender. 
É um momento em que muitos sentimentos se misturam. Em alguns dias senti muita vontade de chorar, e chorei. Sinto uma sensibilidade à flor da pele, como se qualquer coisa me atingisse. Atrelado a isso também existem alguns pensamentos de duvida,  medo da capacidade de te educar, e da sensação de que agora existe um ser no mundo que depende de mim e que (ao menos por enquanto) me demanda toda a atenção e dedicação. Isso é maravilhoso, mas dá muito medo. É como se nunca mais eu fosse ser independente novamente. Como se tivesse renunciado aos meus momentos de solitude. 
Existe também a dor física e de mudanças não esperadas no corpo. 
No meu caso, por exemplo, fizemos um parto normal que foi bem tranquilo, mas não imaginava o inchaço (e incômodo) por tanto tempo e que fosse desenvolver uma hemorroida. Passei uma semana um pouco pensativa e introspectiva sobre isso, pois é algo que ninguém fala no seu livros e nas palestras. 
É para completar, por vezes me vem alguns pensamentos psicóticos: imagino vc caindo no chão, penso em vc ficando doente, penso em varias coisas ruins acontecendo com você e percebo o quanto o meu coração fica apertadinho, tentando imaginar como eu agiria em determinadas situações.
Enfim, filha, é uma ausência de controle pleno. Quando nos tornamos mães (ou pais) perdemos o controle sobre nossas próprias vidas e nossos sentimentos, pois existe algo muito forte ali fora, que nos desafia o tempo todo. 
Esse tal de puerpério é uma fase difícil mesmo. É um momento de muitas transformações e não somos suficientemente preparadas para isso. Mas entendo que isso é uma fase e que vai passar. E por você viveria esses conflitos quantas vezes fossem necessárias. Porque a alegria de observar vc dormindo (ali perfeitinha), de acariciar sua testa, de observar suas caretas.....tudo isso não tem preço. E nossa jornada juntas está apenas começando. Muito maus e bons momentos virão pela frente. Mas tudo bem, afinal, mar calmo nunca fez bom marinheiro! 



Nosso parto

Filha, são 3:45 da manhã e estou sem sono (por mais incrível que pareça). Vc dorme aqui mesmo nos meus braços e não canso de olhar para o seu rostinho e o quão repleta de amor me sinto por vc. Nessa insônia meio doida, repassou um filme na minha cabeça, nosso primeiro episódio apenas: o parto! 
Foi lindo, filha, de uma forma que esperávamos e que tanto eu e seu pai batalhamos para conseguir. E repassando todo o desenrolar, só reforçamos como somos amparados por uma força superior incrível, que nos ajudou e intuiu a trilharmos muitos passos até essa nossa conquista.
Acordamos no Domingo um pouco mais tarde, por volta das 8:30. Eu comentei com seu pai que tinha a impressão de ter tido muitas contrações ao longo da noite. Levantamos e nos planejamos para dar uma organizada na casa e depois, quem sabe, dar uma passeada. Como todas as manhãs, iniciamos a preparação do nosso café da manhã e fui verificando que a intensidade das contrações aumentavam, assim como o intervalo entre eles. Optamos por esperar dar 10hs e enviar uma mensagem para a Dra. Pilar, a fim de evitar um alarde repentino à toda família do Rio, pois sabíamos que o processo demoraria muitas horas, de acordo com tudo o que lemos e estudamos. 
Mamãe estava bem calma, apesar das contrações estarem fortes e cada vez menos espaçadas. Papai estava mais ansioso, querendo que mamãe entrasse em contato com a médica logo. Tomamos nosso delicioso café e mamãe foi ao banheiro como todos os dias, parecia que meu corpo já presentia que vc viria hoje e promoveu uma “limpa”. As 10h entrei em contato com a Dra, mas o tel estava desligado. Escrevi um recadinho, mas as contrações ficavam cada vez mais intensas e frequentes. Sempre que elas apareciam, mamãe ia para a cama fazer o exercício de gatinho (que fazíamos nas manhãs de ioga), o que ajudava a aliviar a dor. Parecia que a família estava pressentindo algo pois sua avó Glória enviou mensagem perguntando e o seu avô Tuffy ligou, mas seu pai não quis responder  nem atender para não gerar expectativa. No entanto, resolvemos avisar a sua avó Marise e também ligamos para o vovô Tuffy e a vovó Glória para avisar que a chance de vc nascer hoje era grande. A Dra Pilar nos respondeu 20 min depois informando que estava de plantão no hospital, assim como a pediatra indicada por ela. E que se você escolhesse nascer hoje, você iria brilhar! ☀️ E sugeriu que fôssemos até lá para que ela me examinasse e nos desse um parecer se já deveríamos convocar a família.
Começamos então a nos preparar para irmos ao hospital e as contrações reduzindo seu tempo. Tive vontade de tomar um banho e ainda deu tempo de tirar a última foto da barriga! 
Por um momento tive medo de não aguentar o parto normal, pois a intensidade da dor estava forte e imaginei que viveria esse processo pelas próximas 12/16 horas, já que em média numa primeira gestação, o trabalho de parto dura esse tempo.
Nos preparamos e seguimos para a clínica. Entramos na emergência por volta das 13hs e pedi ao seu pai para ver a prioridade, pois as dores estavam cada vez mais intensas.
Ao ser examinada pela Dra Pilar, veio a surpresa de que eu já estava com 9 cm de dilatação. Subimos para a sala de pré internação por volta de 13:50 para aguardarmos a resposta do plano de saúde. E avisamos a família para virem do Rio pois vc chegaria ao mundo hoje. Seu pai criou um grupo para facilitar a comunicação, com pessoas da família e amigos mais íntimos, coisas que a tecnologia nos auxilia.
Ficamos na pré internação por pouco tempo e já seguimos pra a maternidade por volta das 14:20, naquele quarto do parto humanizado que visitamos. Lá mamãe ficou vivenciando a chegada das contrações e se curvava pra frente à cada onda de dor e emoção.
Quando a intensidade foi aumentando, mamãe quis tomar um banho, que aliviou bastante a dor. E contou com o amparo e auxílio de muitas pessoas que estavam no local. Mamãe procurou caminhar, abaixar e se manter ativa durante todo o processo.
O tempo foi passando e fomos esperando pacientemente a sua chegada. De fundo tocava as nossas músicas de piano que ouvíamos pela manhã no bosque. Enquanto isso, a família se deslocava até o hospital. Queria que sua chegada se procedesse já com todos aqui. E as coisas foram caminhando para isso pois as contrações de expulsão não aconteciam. Por volta de 16:50 a Dra Pilar achou prudente romper a bolsa, que se mantinha ainda integra, para que as contrações de expulsão começassem. Ao ser tocada pela médica, ela disse que sua cabecinha já estava na saída. E pedi para tocar tb. Senti seu cabelinho ali bem abaixo, pertinho da gente. Após esse momento, resolvi deitar um pouco para relaxar pois sabia que precisaria de energia para a sua saída. Fiquei de lado na cama, para não atrapalhar a questão óssea e consegui ficar alguns minutos em tranquilidade.
Mais algum tempo se passou e as contrações de expulsão não chegavam. A Dra Pilar sugeriu aplicarmos uma pequena dose de ocitocina para facilitar, mas eu tentei resistir e voltei a me manter ativa no nosso parto, ficando de cócoras entre um intervalo de contração e outro. Por volta das 18hs uma pequena dose do “hormônio do amor” foi aplicado e imediatamente mamãe começou a sentir uma forte vontade de fazer força e uma dor muito intensa.
Foi aí que me posicionei de quatro na cama. A cada contração mamãe fazia uma força que vinha de dentro, e foi sendo incentivada pelo papai e pela médica que diziam que eu estava fazendo a força certa. A onda passava e mamãe relaxava apoiando sobre a cama. Seis contrações foram suficientes para que você viesse ao mundo. Na última, mamãe fez uma prece e pediu coragem aos amigos espirituais para conseguirmos. E conseguimos: com uma força incrível que vinha de dentro do corpo, fizemos força juntas e sua cabeça saiu. Em seguida, uma nova onda veio e todo o seu corpo foi expelido. Foi algo tão rápido que nem deu tempo do fotógrafo chegar à sala, o que acabou sendo ótimo pq ele estava com uma luz incomoda demais.
Em meio à surpresa de todos ao nascimento, mamãe virou-se de frente e recebeu você no peito, pele a pele, ainda ligadas pelo cordão umbilical. Um paninho quente foi colocado sobre você para te esquentar, e ficamos por um longo tempo nos olhando e te admirando. Que milagre da vida, filha! Como é lindo e como valeu a pena cada passo até chegar aqui. 
Os procedimentos médicos se seguiram, mas vc continuou em meu colo. Tentamos fazer vc mamar já de imediato, mas não aconteceu, mesmo com a ajuda da Dra. Heloísa, sua pediatra. Isso foi irrelevante perante a alegria de ter vc ali pertinho de nós. Nossos olhares se encontravam e mamãe te deu boas vindas ao mundo! Aplicaram remédio nos seus olhos e a injeção de vitamina K com vc ainda em meus braços. Mamãe tb tomou uma injeção. Seu pai cortou seu cordão após a pulsação cessar.
Nossa placenta não saiu rapidamente e a Dra Pilar precisou mexer lá dentro da mamãe, o que causou algum desconforto. Mas vc estava comigo e fiquei sem qualquer noção de tempo e dor. Nos minutos seguintes, a Dra Heloísa pediu para levá-la para os procedimentos de pesagem, medição etc. Levaram vc do meu colo, mas seu pai acompanhou tudo. Nesse momento você chorou bastante. Te vestiram e colocaram vc novamente sobre o meu peito para tentarmos a sua primeira mamada. Dessa vez uma enfermeira nos ajudou e conseguimos. Vc ficou ali alguns minutos sendo alimentada pela primeira vez, que alegria!!!
Passado tudo isso, papai quis levar você para conhecer a nossa querida família que estava lá do lado de fora, ansiosos pra te ver. 
Mamãe permaneceu mais alguns minutos com a Dra. Pilar que precisou dar alguns pontinhos nas lacerações ocorridas com a força que fizemos (o que é algo natural).
Passado esse momento, levantei da cama em meio a muito sangue e fui levada para o quarto onde ficaríamos, amparadas por outras duas enfermeiras que foram muito bacanas.
Tomei um delicioso banho, amparada por elas e como mamãe conhece bem seu corpo, eu sabia que poderia ter uma vertigem, em função da perda de sangue, o que de fato aconteceu. Mas logo me recuperei. Nesse momento a vovó Marise entrou no quarto e nos deu um forte abraço de parabéns. Ela estava bem feliz e emocionada.
Me sentia plena nesse momento, filha. Depois de um gostoso banho e completamente recuperada, me sentia extasiada em relembrar que tudo aconteceu da forma como desejamos e planejamos para a sua vinda ao mundo. Era um milagre!!! Que sabemos que teve o amparo de uma corrente de pessoas encarnadas e desencarnadas. E somos tão gratos por isso.


O que eu observo em você 5

  Filha, O tempo está passando mais rápido o que nossa consciência pode perceber. Aqui pela floria, acabamos e viver a experiência o nosso...