Filha, são 3:45 da manhã e estou sem sono (por mais incrível que pareça). Vc dorme aqui mesmo nos meus braços e não canso de olhar para o seu rostinho e o quão repleta de amor me sinto por vc. Nessa insônia meio doida, repassou um filme na minha cabeça, nosso primeiro episódio apenas: o parto!
Foi lindo, filha, de uma forma que esperávamos e que tanto eu e seu pai batalhamos para conseguir. E repassando todo o desenrolar, só reforçamos como somos amparados por uma força superior incrível, que nos ajudou e intuiu a trilharmos muitos passos até essa nossa conquista.
Acordamos no Domingo um pouco mais tarde, por volta das 8:30. Eu comentei com seu pai que tinha a impressão de ter tido muitas contrações ao longo da noite. Levantamos e nos planejamos para dar uma organizada na casa e depois, quem sabe, dar uma passeada. Como todas as manhãs, iniciamos a preparação do nosso café da manhã e fui verificando que a intensidade das contrações aumentavam, assim como o intervalo entre eles. Optamos por esperar dar 10hs e enviar uma mensagem para a Dra. Pilar, a fim de evitar um alarde repentino à toda família do Rio, pois sabíamos que o processo demoraria muitas horas, de acordo com tudo o que lemos e estudamos.
Mamãe estava bem calma, apesar das contrações estarem fortes e cada vez menos espaçadas. Papai estava mais ansioso, querendo que mamãe entrasse em contato com a médica logo. Tomamos nosso delicioso café e mamãe foi ao banheiro como todos os dias, parecia que meu corpo já presentia que vc viria hoje e promoveu uma “limpa”. As 10h entrei em contato com a Dra, mas o tel estava desligado. Escrevi um recadinho, mas as contrações ficavam cada vez mais intensas e frequentes. Sempre que elas apareciam, mamãe ia para a cama fazer o exercício de gatinho (que fazíamos nas manhãs de ioga), o que ajudava a aliviar a dor. Parecia que a família estava pressentindo algo pois sua avó Glória enviou mensagem perguntando e o seu avô Tuffy ligou, mas seu pai não quis responder nem atender para não gerar expectativa. No entanto, resolvemos avisar a sua avó Marise e também ligamos para o vovô Tuffy e a vovó Glória para avisar que a chance de vc nascer hoje era grande. A Dra Pilar nos respondeu 20 min depois informando que estava de plantão no hospital, assim como a pediatra indicada por ela. E que se você escolhesse nascer hoje, você iria brilhar! ☀️ E sugeriu que fôssemos até lá para que ela me examinasse e nos desse um parecer se já deveríamos convocar a família.
Começamos então a nos preparar para irmos ao hospital e as contrações reduzindo seu tempo. Tive vontade de tomar um banho e ainda deu tempo de tirar a última foto da barriga!
Por um momento tive medo de não aguentar o parto normal, pois a intensidade da dor estava forte e imaginei que viveria esse processo pelas próximas 12/16 horas, já que em média numa primeira gestação, o trabalho de parto dura esse tempo.
Nos preparamos e seguimos para a clínica. Entramos na emergência por volta das 13hs e pedi ao seu pai para ver a prioridade, pois as dores estavam cada vez mais intensas.
Ao ser examinada pela Dra Pilar, veio a surpresa de que eu já estava com 9 cm de dilatação. Subimos para a sala de pré internação por volta de 13:50 para aguardarmos a resposta do plano de saúde. E avisamos a família para virem do Rio pois vc chegaria ao mundo hoje. Seu pai criou um grupo para facilitar a comunicação, com pessoas da família e amigos mais íntimos, coisas que a tecnologia nos auxilia.
Ficamos na pré internação por pouco tempo e já seguimos pra a maternidade por volta das 14:20, naquele quarto do parto humanizado que visitamos. Lá mamãe ficou vivenciando a chegada das contrações e se curvava pra frente à cada onda de dor e emoção.
Quando a intensidade foi aumentando, mamãe quis tomar um banho, que aliviou bastante a dor. E contou com o amparo e auxílio de muitas pessoas que estavam no local. Mamãe procurou caminhar, abaixar e se manter ativa durante todo o processo.
O tempo foi passando e fomos esperando pacientemente a sua chegada. De fundo tocava as nossas músicas de piano que ouvíamos pela manhã no bosque. Enquanto isso, a família se deslocava até o hospital. Queria que sua chegada se procedesse já com todos aqui. E as coisas foram caminhando para isso pois as contrações de expulsão não aconteciam. Por volta de 16:50 a Dra Pilar achou prudente romper a bolsa, que se mantinha ainda integra, para que as contrações de expulsão começassem. Ao ser tocada pela médica, ela disse que sua cabecinha já estava na saída. E pedi para tocar tb. Senti seu cabelinho ali bem abaixo, pertinho da gente. Após esse momento, resolvi deitar um pouco para relaxar pois sabia que precisaria de energia para a sua saída. Fiquei de lado na cama, para não atrapalhar a questão óssea e consegui ficar alguns minutos em tranquilidade.
Mais algum tempo se passou e as contrações de expulsão não chegavam. A Dra Pilar sugeriu aplicarmos uma pequena dose de ocitocina para facilitar, mas eu tentei resistir e voltei a me manter ativa no nosso parto, ficando de cócoras entre um intervalo de contração e outro. Por volta das 18hs uma pequena dose do “hormônio do amor” foi aplicado e imediatamente mamãe começou a sentir uma forte vontade de fazer força e uma dor muito intensa.
Foi aí que me posicionei de quatro na cama. A cada contração mamãe fazia uma força que vinha de dentro, e foi sendo incentivada pelo papai e pela médica que diziam que eu estava fazendo a força certa. A onda passava e mamãe relaxava apoiando sobre a cama. Seis contrações foram suficientes para que você viesse ao mundo. Na última, mamãe fez uma prece e pediu coragem aos amigos espirituais para conseguirmos. E conseguimos: com uma força incrível que vinha de dentro do corpo, fizemos força juntas e sua cabeça saiu. Em seguida, uma nova onda veio e todo o seu corpo foi expelido. Foi algo tão rápido que nem deu tempo do fotógrafo chegar à sala, o que acabou sendo ótimo pq ele estava com uma luz incomoda demais.
Em meio à surpresa de todos ao nascimento, mamãe virou-se de frente e recebeu você no peito, pele a pele, ainda ligadas pelo cordão umbilical. Um paninho quente foi colocado sobre você para te esquentar, e ficamos por um longo tempo nos olhando e te admirando. Que milagre da vida, filha! Como é lindo e como valeu a pena cada passo até chegar aqui.
Os procedimentos médicos se seguiram, mas vc continuou em meu colo. Tentamos fazer vc mamar já de imediato, mas não aconteceu, mesmo com a ajuda da Dra. Heloísa, sua pediatra. Isso foi irrelevante perante a alegria de ter vc ali pertinho de nós. Nossos olhares se encontravam e mamãe te deu boas vindas ao mundo! Aplicaram remédio nos seus olhos e a injeção de vitamina K com vc ainda em meus braços. Mamãe tb tomou uma injeção. Seu pai cortou seu cordão após a pulsação cessar.
Nossa placenta não saiu rapidamente e a Dra Pilar precisou mexer lá dentro da mamãe, o que causou algum desconforto. Mas vc estava comigo e fiquei sem qualquer noção de tempo e dor. Nos minutos seguintes, a Dra Heloísa pediu para levá-la para os procedimentos de pesagem, medição etc. Levaram vc do meu colo, mas seu pai acompanhou tudo. Nesse momento você chorou bastante. Te vestiram e colocaram vc novamente sobre o meu peito para tentarmos a sua primeira mamada. Dessa vez uma enfermeira nos ajudou e conseguimos. Vc ficou ali alguns minutos sendo alimentada pela primeira vez, que alegria!!!
Passado tudo isso, papai quis levar você para conhecer a nossa querida família que estava lá do lado de fora, ansiosos pra te ver.
Mamãe permaneceu mais alguns minutos com a Dra. Pilar que precisou dar alguns pontinhos nas lacerações ocorridas com a força que fizemos (o que é algo natural).
Passado esse momento, levantei da cama em meio a muito sangue e fui levada para o quarto onde ficaríamos, amparadas por outras duas enfermeiras que foram muito bacanas.
Tomei um delicioso banho, amparada por elas e como mamãe conhece bem seu corpo, eu sabia que poderia ter uma vertigem, em função da perda de sangue, o que de fato aconteceu. Mas logo me recuperei. Nesse momento a vovó Marise entrou no quarto e nos deu um forte abraço de parabéns. Ela estava bem feliz e emocionada.
Me sentia plena nesse momento, filha. Depois de um gostoso banho e completamente recuperada, me sentia extasiada em relembrar que tudo aconteceu da forma como desejamos e planejamos para a sua vinda ao mundo. Era um milagre!!! Que sabemos que teve o amparo de uma corrente de pessoas encarnadas e desencarnadas. E somos tão gratos por isso.
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