Filha,
Todo Domingo eu passo a tarde na cozinha, preparando nossas refeições para a semana. Durante essas horas, cabe ao seu pai cuidar e ficar com você. Foi a forma que encontramos de trazer um pouco mais de leveza para a nossa semana, já que preparar as refeições demanda tempo, e ele é escasso. Implementamos essa rotina e, apesar do cansaço que tenho, é muito melhor porque consigo manter momentos de auto cuidado ao longo do dia, quando você tira as suas (curtas) sonecas.
Mas já há algum tempo ando observando que o início da semana é sempre mais difícil. Meu humor fica mais sensível, os rompantes de raiva, os gritos (que logo depois geram a culpa), a falta de paciência acabam se concentrando na segunda e terça feira. E comecei a avaliar se isso não estaria vinculado à rotina cansativa do domingo.
Ainda não tinha a resposta.
Mas nessa última semana, houve um fato que me trouxe um "insight", aquele momento "eureka".
Acabei começando tarde porque tive que arrumar a cozinha, limpar as verduras e ainda fui interrompida por um telefonema desnecessário. Por volta das 18h eu já me sentia cansada e frustrada porque ainda faltava preparar quase 50% do cardápio planejado. E dessa vez, fui sentindo aos poucos e percebendo meus sentimentos. A frustração estava nítida. E fui tentando administrá-la, repensando alguns pratos e já pensando no que eu deixaria para fazer ao longo da semana.
Imersa a esse clima, por volta das 19h seu pai adentrou a cozinha. Perguntou se eu ainda iria demorar e comentou que estava exausto porque JÁ estava com você desde às 15:30.
Eu fiz uma pausa.
Talvez para repassar a frase na minha mente e entender os efeitos dela.
Não tive raiva dele. De verdade! Tanto que nem refutei. Apenas informei que já estava terminando.
Tirei o avental e fui até seu quarto, te acolher e amamentar.
Foi aí que o pranto veio. E claramente compreendi o porquê nas segundas e terças serem tão dolorosas para mim. Enquanto a frase dele se repetia na minha mente, eu pensava nos nossos dias. Eu e você, apenas! Todos os dias!!! Por 8, 10, 12 horas seguidas. Sem pausa, sem respiro, sem "bebidinha".
É filha. É isso!!!
Quando você nasceu, a minha amiga Isabela escreveu um texto lindo em que citava "o padrão que temos hoje não é humano com as mulheres e nem sustentável"!
Essa frase forte fez sentido há um ano atrás e ainda faz hoje.
É a força esmagadora do patriarcado, nessa sociedade em que vivemos, minha filha querida. Essa cultura absurda que ensina aos nossos meninos e meninas que aos homens cabem a tranquilidade das escolhas, e da tranquilidade. Enquanto nós mulheres somos soterradas de trabalho e orientadas a se perderem de si mesmas.
Enquanto sentia você no meu peito, eu chorava e pensava que eu gostaria de deixar um mundo diferente disso pra você. Gostaria que a sua escolha de ser mãe (junto com um pai) não significasse que seus esforços teriam que superar (e muito) os esforços dele. Gostaria de ver você crescer em uma sociedade mais equilibrada, em que o pai que dá mamadeira e troca a fralda não é chamado de "paizão" por todos os lados.
Porque é bem essa a nossa realidade. Os "bons" pais estão sempre recebendo "biscoitinhos" do mundo de fora, fazendo-os crer que são uma pérola no oceano.
E essa cultura está tão arraigada em nossa sociedade, que eu nem consegui retrucar com seu pai. Não o culpo. Na verdade, eu acho que ele nem percebeu o peso da frase que entoou. Porque na cabeça dele essas coisas estão tão arraigadas que a gente nem pára pra pensar nas palavras ditas. Vive apenas no automatismo.
Mas não deixarei de dizer. Precisava vir aqui antes, escrever sobre isso pra você. Deixar que esse registro carregue um pouco do meu pranto e da minha emoção, para que eu tenha condições de trilhar um conversa franca, aberta e equilibrada.
Acho importante que seu pai saiba como me senti nesse dia. Para que ele também tenha a oportunidade de repensar e evoluir.
E assim, filha, aos poucos, possamos ir nos modificando internamente, a fim de criar um mundo (interno) melhor pra você.
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