Filha,
Esta carta será grande, talvez
até enorme. Mas é preciso escrevê-la. Talvez ela seja mais pra mim, pra minha
criança interna ferida do que pra você. Mas independentemente de quem seja o
remetente, ela é necessária. Para você entender o que houve com o mundo em 2020
e para eu organizar meus pensamentos que parecem me engolir, muitas vezes. É
uma forma de organizá-los, para que eu consiga encontrar paz em meio a tanto
caos.
A pandemia
Existe um vírus lá fora, forçando
ao mundo olhar pra dentro.
Ele começou distante, lá do outro
lado e eu confiava que a China conseguiria encontrar a cura e isolar o vírus
antes que ele se espalhasse pelo mundo. Não aconteceu!! Eu e você estávamos no
Rio, no dia 12 de março de 2019 quando percebi ele chegando perto. Sua tia avó
Glorinha que nos alertou. Desde esse dia ela já estava de quarentena porque
tinha tido contato com pacientes que testaram positivo. E me alertou que as
coisas iriam “estourar” no Brasil na semana seguinte. Fiquei bem tensa, com os
pensamentos focados em lhe preservar, e abismada porque a doença estava ali
perto de nós, da nossa família. E ainda nem sabíamos o que estava por vir.
Eu tinha milhares de planos para
a semana seguinte. Estava próximo do ano novo astrológico (que começou no dia
20 de março), sol em áries e eu sentindo uma força potente para a realização
como há muito não sentia:
·
Tinha agendado uma sessão de Constelação
familiar para mergulhar fundo na cura da minha criança interna e tentar quebrar
um dos tijolos da relação com a sua avó,
·
Tinha reunião de trabalho para tentar alavancar
a empresa de organização e estilo,
·
Veria amigas e retomaria os projetos dos
círculos de mulheres.
Enfim, tudo estava ali, pulsante,
latejando para (finalmente) ganhar corpo. Eu sentia minha energia vibrar e me
levar para fora do puerpério. De alguma forma eu sentia que já era o momento de
me lançar. Mas tudo perdeu o sentido quando me vi diante da realidade de que
era preciso (e mais seguro) nos isolarmos. Esperamos o retorno do seu pai da
conferencia de Recife e voltamos na segunda (16 de março) para a nossa casa, em
Juiz de Fora. A essa altura, como uma cidade menor, o número de casos ainda era
inexistente e eu entendi que estaríamos mais seguros.
Desde então, permanecemos em
casa. No Rio, as aulas foram suspensas e iniciou-se a orientação para que as
pessoas permanecessem em casa, sem contato com pessoas externas, a fim de
evitar a rápida propagação do vírus. Nos primeiros dias, já em Juiz de Fora,
conseguimos descer para o bosque, e respirar ar puro. Mas ainda nessa primeira
semana de isolamento social, a síndica resolveu fechá-lo. Foi um dia difícil!
Além dessa notícia de que não teríamos mais o nosso refúgio, ainda recebi a ligação
da corretora de valores. Conversei com o analista e foi duro perceber que toda
a energia empregada em planejar as finanças e investimentos nos projetos,
precisariam ser adiados, em função das incertezas do mercado. Acho que essas
duas coisas juntas, me trouxeram um desânimo tão grande, acionaram o meu medo
mais profundo e aí eu chorei. Chorei muito naquele dia, todo o dia. Chorei com
motivos e sem motivos e deixei que as lágrimas viessem, para senti-las,
vivenciá-las e aceita-las. Não lutar e nem resistir, filha! É melhor assim! E
foi terapêutico. E aí, nesse momento de catarse, tive vontade de ouvir meus
sentimentos, entender tanta coisa que ecoa aqui dentro do peito e que preciso
(de alguma forma) colocar para fora.
E o que esse vírus está ensinando
para toda a sociedade? E
para mim? Nossa....tanta
coisa, filha. Parece que o mundo está vivendo um grande puerpério coletivo. E
talvez, por isso, esteja fazendo tanto sentido pra mim e eu esteja sentindo
minhas emoções tão afloradas.
Então, por isso, aproveitando a
oportunidade que esse vírus nos trás de realizarmos um mergulho interno, coloco
aqui tudo (ou parte de tudo) que tenho dentro de mim. Assim, quem sabe um dia,
você possa revisitar essa carta para entender o contexto que sua mãe viveu em
Março de 2020. Possa conhecer um pedaço
da sua história e compreender como tudo isso impactou na sua formação.
Sobre o tempo e a nossa relação com ele
Esse momento nos convida a
refletirmos sobre o tempo, e nossa relação com ele. Como sociedade, estamos
vivendo os dias numa correria frenética, sem focar o momento presente, sem nos
darmos conta do que realmente importa. Essa pandemia é um convite à pausa,
necessária! E talvez essa relação com o tempo ressoou em mim nessa sexta de lágrimas.
Porque me vi (de novo) naquela angustia de ter os dias correndo solto, cheia de
planos, mas nenhum realizado. Me “reprojetei” naqueles primeiros meses, em que eu
brigava com as horas do dia para conseguir cuidar de você e cuidar das
atividades da casa, ansiosa para me sentir produtiva. Pra quem? Abria mão da qualidade do
momento presente para viver a ansiedade de um cronograma, desnecessariamente
inflexível, em que não sobrava tempo para a respiração. Me sentia sufocada,
numa luta diária com as minhas próprias expectativas, ansiosa para você dormir.
Ah...quanta bobagem! Se eu soubesse o que sei hoje, teria feito tão diferente.
Passaria mais tempo com você no colo, agarradinha, sem colocar você sozinha
naquela Moisés tão frio. Talvez eu percebesse a beleza de cada momento ao seu
lado, sem esperar tanto dos minutos posteriores. Mesmo porque o tempo (esse que
deixamos nos atropelar) corre tão rápido. Você hoje tem quase 11 meses e eu já
sinto saudades. E uma vontade lá no fundo de voltar no tempo, só pra eternizar
aquela dança, aquele olhar, aquele cafuné. Porque aprendi, filha, através dessa
saudade, que quando não estamos inteiras no momento, vivendo plenamente o
presente, a mente esquece. O automático se encarrega de apagar da nossa memória
esses momentos tão sublimes, que duram apenas um piscar de olhos.
Então, que em meio a essa
pandemia, possamos pausar e viver o presente, intensamente. Para que as boas
lembranças se eternizem em nossos corações.
Sobre a superficialidade das relações humanas
Ela também nos escancara a falta
de profundidade e de cuidado das nossas relações. Quantas mães não estão
terceirizando os cuidados de seus filhos a outras pessoas (ou instituições), fazendo
com que seus filhos permaneçam todo o dia em atividades que o ocupem e cansem, para que cheguem em casa apenas
para dormirem?
Nessa ânsia de formá-los, como
pequenos prodígio, para o mundo profissional (e como será esse mundo), estamos perdendo
a oportunidade ímpar de criar uma conexão genuína com nossas crianças.
Muitas mães deixam os filhos em
horário integral das escolas, para manterem suas carreiras profissionais, que
muitas vezes não as nutrem. Não falo aqui daquelas mães que não tem escolha,
que por uma necessidade triste e real, precisam deixar seus filhos, muitas
vezes, para cuidar dos filhos de outras. Falo de um grupo, seleto (é verdade),
que trabalha mais pelo dinheiro, do que pelo propósito, e abrem mão da presença
com seus filhos, por um salário alto, apenas para gastarem seus recursos com
roupas caras e cortes de cabelos desproporcionais. E quantos pais são ausentes
na educação de seus filhos e que deixam recair sobre os ombros femininos toda a
responsabilidade por essa missão?
Enfim, temos muitas famílias que
não priorizam nem a quantidade e nem a qualidade do tempo com seus filhos e
perdem a oportunidade ímpar de criar conexão, de conhecerem seus filhos, de
observar seus gostos e talentos. São esses mesmos pais que, mais tarde, na
adolescência, irão culpar os filhos por serem “fechados” e “misteriosos”.
Diante desse isolamento, filha,
muitas dessas famílias se veem obrigadas a conviver mais. Estão tendo a
oportunidade ímpar de rever suas prioridades, a se reinventarem e a reaprenderem
a conviver. E quem sabe, lá no seu íntimo, possam repensar o modelo que
escolheram para educar seus filhos.
Ao sairmos dessa experiência,
talvez tenhamos pais mais engajados na educação de suas crianças e jovens
(assim espero).
Sobre a dificuldade (e oportunidade) de ouvir meus sentimentos
Naquela sexta-feira, filha, enquanto
eu chorava (compulsivamente), busquei escutar o sentimento que dominava meu
coração. Pensei em frustração! Frustração por acreditar que eu, finalmente,
conseguiria dar alguns passos rumo aos meus projetos de 2020 (depois de tanta
procrastinação) e ter que adiá-los por mais um tempo.
E aí, a partir desse
reconhecimento, existe um mundo de conflitos a ser desvendado.
Tive uma infância boa, mas, como
muitos da minha geração, somos frutos de uma educação disciplinadora, em que
“criança não tinha querer”. Crescemos educados, respeitosos e disciplinados
(generalizando), no entanto, não sabemos reconhecer nossos próprios
sentimentos. Nossos educadores, além de não validarem aquilo que sentíamos
(porque criança era considerada como alguém que precisa ser doutrinado, assim
como um pet), ainda classificavam os sentimentos em bons e ruins. E passavam a
nos julgar por isso. Dessa forma, por medo de não sermos minimamente amados,
íamos reprimindo a raiva, o ciúme, o rancor, a inveja, para não sermos
rotulados como perversos. E esqueceram de explicar que sentir tudo isso é
apenas humano.
Sendo educada nesse contexto, Eu
sinto, até hoje, uma dificuldade abissal para compreender meus sentimentos. Muitas
vezes eu apenas consigo perceber que não estou bem, mas fica difícil nomeá-los
da forma correta. É preciso muita calma (e presença) para mergulhar nas
sensações do corpo e buscar lá nas vísceras o sentimento que me domina naquele
instante. Por isso, não sei te afirmar se o que senti foi, de fato, frustração.
Outro elemento importante: é extremamente
difícil pra mim vencer a procrastinação. Ela é como uma força invisível que
está sempre me arrastando pra baixo, por mais que eu planeje e estabeleça
objetivos claros. Ela está sempre lá me dizendo que eu “não consigo”, “que não
sou capaz”, “que é melhor esperar mais um pouco”, “que não sou boa o
suficiente”, “que eu preciso me preparar melhor”. Eu sigo tentando, a cada dia,
lutando com essas vozes internas que persistem em ficar. E aí, quando venço o
medo de errar e me lanço, acaba sendo frustrante ter que recuar, pelas
circunstâncias da vida.
Talvez por esse misto de coisas,
é que eu tenha sentido meu coração tão apertado.
E olha que linda oportunidade o
isolamento social nos trás. A chance de olharmos para esses sentimentos tão
intensos que brotam lá do nosso íntimo. Parar, sentir, observar. Quem sabe
depois, até nomear. Nos sentir humanos e abraçar toda essa confusão emocional
como escola e aprendizado.
Sobre a minha missão no mundo
Meu último choro da noite foi bem
sentido. Ele trazia uma angustia de enxergar as minhas potencialidades no
sucesso do outro, e a dor de não conseguir sair do lugar. Eu assisti uma live
entre a Rita Monte e a Lua Barros, e foi maravilhoso sentir o poder dessas duas
mulheres que encontraram seu lugar ao sol e conseguem trazer ao mundo,
genuinamente, a sua missão de vida. Eu também quero isso e acho que mereço.
Desde os 20 poucos anos que me questiono e vou à luta pra conquistar aquilo que
eu acredito ser a minha vocação. Não tenho medo de dar passos para trás, de
recomeçar, de me refazer, de reconstruir. Mas apesar de todos os processos e
todas as buscas, ainda não alcancei a resposta definitiva. Também nem acho que
ela precisa ser definitiva!! Com tantas multipotencialidades, posso fazer
muitas coisas. Mas gostaria de focar em algo que me ajudasse, pelo menos, a
acender essa primeira chama! Aí depois fica mais fácil para a fogueira queimar!
Isso me consome tanto, filha. É
tão difícil ter a convicção de que EU posso, EU quero. Mas nunca conseguir
chegar até lá! É como navegar num mar sem fim, sem nunca encontrar a costa.
Infelizmente, isso também tem a ver com a minha infância. Acho que faltou
observação, faltou direcionamento, faltou nutrição. Com isso, cresci
desconectada da minha essência e agora preciso mover montanhas para resgatá-la.
Já me imaginei professora, psicóloga, terapeuta, facilitadora, consultora
financeira, consultora de organização, pedagoga, pesquisadora, coach. Mas não
consegui emplacar nenhuma dessas atividades. E estava justamente me preparando
para tentar algo. Venci o medo do desconhecido e estava decidida a colocar
alguns panfletos nos murais da UFJF oferecendo meu serviço de consultoria
financeira. Mas aí vivenciamos essa pausa! E me fez repensar em tudo de novo.
O que eu sei é quero encontrar o
meu lugar no mundo, trabalhar em algo que eu veja propósito e sentido. Algo que
cause impacto em mim e nos outros, que faça brilhar a minha luz.
Por isso, diante dessa pandemia
que nos obriga a se reinventar profissionalmente, que nos convida a olhar mais
intimamente a nossa missão de vida para fazê-la florescer agora, nesse momento,
eu me questiono mais uma vez: Qual a minha missao?
O que vou deixar para o mundo como um legado?
Sobre a política atual
Além desse vírus mortal, o Brasil
está desde janeiro de 2019 com outro vírus (e talvez este seja ainda pior).
Trata-se do nosso Presidente da República, eleito pelo povo, para desespero de
muitos. Trata-se de um ser esquisito, grosseirão, que não tem a menor
capacidade (e maturidade emocional) para governar um país como o nosso. Mesmo
diante dessa crise de saúde, ele consegue piorar a situação cada vez mais, com
declarações esdrúxulas, posicionamento absurdo (favorecendo a economia em
detrimento da saúde pública) e tomando decisões cada vez mais precipitadas. A
situação é séria, filha, e eu gostaria de ter uma liderança mais preparada para
lidar com isso. Apesar do medo da crise econômica, tenho mais medo da crise de
saúde porque ela poderá levar embora muitas pessoas que amamos.
Diante da notícia de que ele iria
demitir o Ministro da Saude (Dr. Mandetta) no meio da pandemia, eu tive medo.
Senti uma mudança forte das minhas vibrações e percebi que estava mais irritada
e mais ávida a olhar as notícias (que praticamente não vemos para não nos
impressionarmos). No meu (pouco) entendimento, a equipe do Ministro estava
fazendo um bom trabalho, seguindo as recomendações da OMS, assim como todos os
países.
Todo esse conflito político me
fez relembrar a polaridade absurda que vivemos na época das eleições. Foi um
período energeticamente conturbado, filha, em que a sociedade brasileira foi
equivocadamente dividida em apenas 2 setores: de um lado os Bolsominios e de
outro os Petralhas. Nessa época eu já estava grávida de você e lembro de me
revoltar com essa polaridade institucional, já que nenhum dos dois partidos (e
candidatos) me representavam. E achava um absurdo que nosso país seria
conduzido por um ou pelo outro. Tive uma sensação de não pertencimento incrível,
como se eu não me encaixasse mais aqui. Uma vontade de pegar um foguete e ir
para outro planeta. Pior também foi perceber que a polaridade viria de muitos
amigos e parentes, o que me gerava mais ainda a sensação de não pertencer.
Esses sentimentos estavam já
aquietados porque os dias iam passando e por mais imbecil que o Presidente
seja, as exposições eram mínimas. E a minha busca pelas notícias também. No
entanto, diante dessa pandemia, a figura voltou às manchetes de jornal. E
voltou a falar e fazer besteira. Aí reaviva todo aquele sentimento e
questionamentos. Quem são essas pessoas que escolheram essa criatura como
presidente? O que motiva as
pessoas a defenderem esse tipo, cujo comportamento é digno de pena? Que país é esse, que elege
democraticamente um presidente com esse perfil?
Por que pessoas próximas, que amo e admiro, foram capazes de votar nesse
energúmeno?
De novo, voltei a me questionar
todas essas coisas e a me revoltar com tudo isso. Infelizmente, filha.
Enfim, filha. Fico por aqui, na esperança
de que esses registros nos sirvam de referência para um futuro mais bonito,
mais justo e igualitário para todos. Que possamos fazer da experiência dessa
pandemia, uma oportunidade de autoconhecimento, de amor e colaboração. Que
apesar de todas as dificuldades e desconstruções que o vírus nos trás, que
possamos nos manter saudáveis, firmes e fortes, para vivermos dias melhores e
contarmos tudo isso para as próximas gerações que virão.
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