terça-feira, 12 de maio de 2020

Sobre a Covid-19 (escrito em 28/04)


Filha,
Esta carta será grande, talvez até enorme. Mas é preciso escrevê-la. Talvez ela seja mais pra mim, pra minha criança interna ferida do que pra você. Mas independentemente de quem seja o remetente, ela é necessária. Para você entender o que houve com o mundo em 2020 e para eu organizar meus pensamentos que parecem me engolir, muitas vezes. É uma forma de organizá-los, para que eu consiga encontrar paz em meio a tanto caos.
A pandemia
Existe um vírus lá fora, forçando ao mundo olhar pra dentro.
Ele começou distante, lá do outro lado e eu confiava que a China conseguiria encontrar a cura e isolar o vírus antes que ele se espalhasse pelo mundo. Não aconteceu!! Eu e você estávamos no Rio, no dia 12 de março de 2019 quando percebi ele chegando perto. Sua tia avó Glorinha que nos alertou. Desde esse dia ela já estava de quarentena porque tinha tido contato com pacientes que testaram positivo. E me alertou que as coisas iriam “estourar” no Brasil na semana seguinte. Fiquei bem tensa, com os pensamentos focados em lhe preservar, e abismada porque a doença estava ali perto de nós, da nossa família. E ainda nem sabíamos o que estava por vir.
Eu tinha milhares de planos para a semana seguinte. Estava próximo do ano novo astrológico (que começou no dia 20 de março), sol em áries e eu sentindo uma força potente para a realização como há muito não sentia:
·         Tinha agendado uma sessão de Constelação familiar para mergulhar fundo na cura da minha criança interna e tentar quebrar um dos tijolos da relação com a sua avó,
·         Tinha reunião de trabalho para tentar alavancar a empresa de organização e estilo,
·         Veria amigas e retomaria os projetos dos círculos de mulheres.
Enfim, tudo estava ali, pulsante, latejando para (finalmente) ganhar corpo. Eu sentia minha energia vibrar e me levar para fora do puerpério. De alguma forma eu sentia que já era o momento de me lançar. Mas tudo perdeu o sentido quando me vi diante da realidade de que era preciso (e mais seguro) nos isolarmos. Esperamos o retorno do seu pai da conferencia de Recife e voltamos na segunda (16 de março) para a nossa casa, em Juiz de Fora. A essa altura, como uma cidade menor, o número de casos ainda era inexistente e eu entendi que estaríamos mais seguros.
Desde então, permanecemos em casa. No Rio, as aulas foram suspensas e iniciou-se a orientação para que as pessoas permanecessem em casa, sem contato com pessoas externas, a fim de evitar a rápida propagação do vírus. Nos primeiros dias, já em Juiz de Fora, conseguimos descer para o bosque, e respirar ar puro. Mas ainda nessa primeira semana de isolamento social, a síndica resolveu fechá-lo. Foi um dia difícil! Além dessa notícia de que não teríamos mais o nosso refúgio, ainda recebi a ligação da corretora de valores. Conversei com o analista e foi duro perceber que toda a energia empregada em planejar as finanças e investimentos nos projetos, precisariam ser adiados, em função das incertezas do mercado. Acho que essas duas coisas juntas, me trouxeram um desânimo tão grande, acionaram o meu medo mais profundo e aí eu chorei. Chorei muito naquele dia, todo o dia. Chorei com motivos e sem motivos e deixei que as lágrimas viessem, para senti-las, vivenciá-las e aceita-las. Não lutar e nem resistir, filha! É melhor assim! E foi terapêutico. E aí, nesse momento de catarse, tive vontade de ouvir meus sentimentos, entender tanta coisa que ecoa aqui dentro do peito e que preciso (de alguma forma) colocar para fora.
E o que esse vírus está ensinando para toda a sociedade? E para mim? Nossa....tanta coisa, filha. Parece que o mundo está vivendo um grande puerpério coletivo. E talvez, por isso, esteja fazendo tanto sentido pra mim e eu esteja sentindo minhas emoções tão afloradas.
Então, por isso, aproveitando a oportunidade que esse vírus nos trás de realizarmos um mergulho interno, coloco aqui tudo (ou parte de tudo) que tenho dentro de mim. Assim, quem sabe um dia, você possa revisitar essa carta para entender o contexto que sua mãe viveu em Março de 2020.  Possa conhecer um pedaço da sua história e compreender como tudo isso impactou na sua formação.

Sobre o tempo e a nossa relação com ele
Esse momento nos convida a refletirmos sobre o tempo, e nossa relação com ele. Como sociedade, estamos vivendo os dias numa correria frenética, sem focar o momento presente, sem nos darmos conta do que realmente importa. Essa pandemia é um convite à pausa, necessária! E talvez essa relação com o tempo ressoou em mim nessa sexta de lágrimas. Porque me vi (de novo) naquela angustia de ter os dias correndo solto, cheia de planos, mas nenhum realizado. Me “reprojetei” naqueles primeiros meses, em que eu brigava com as horas do dia para conseguir cuidar de você e cuidar das atividades da casa, ansiosa para me sentir produtiva. Pra quem? Abria mão da qualidade do momento presente para viver a ansiedade de um cronograma, desnecessariamente inflexível, em que não sobrava tempo para a respiração. Me sentia sufocada, numa luta diária com as minhas próprias expectativas, ansiosa para você dormir. Ah...quanta bobagem! Se eu soubesse o que sei hoje, teria feito tão diferente. Passaria mais tempo com você no colo, agarradinha, sem colocar você sozinha naquela Moisés tão frio. Talvez eu percebesse a beleza de cada momento ao seu lado, sem esperar tanto dos minutos posteriores. Mesmo porque o tempo (esse que deixamos nos atropelar) corre tão rápido. Você hoje tem quase 11 meses e eu já sinto saudades. E uma vontade lá no fundo de voltar no tempo, só pra eternizar aquela dança, aquele olhar, aquele cafuné. Porque aprendi, filha, através dessa saudade, que quando não estamos inteiras no momento, vivendo plenamente o presente, a mente esquece. O automático se encarrega de apagar da nossa memória esses momentos tão sublimes, que duram apenas um piscar de olhos.
Então, que em meio a essa pandemia, possamos pausar e viver o presente, intensamente. Para que as boas lembranças se eternizem em nossos corações.

Sobre a superficialidade das relações humanas
Ela também nos escancara a falta de profundidade e de cuidado das nossas relações. Quantas mães não estão terceirizando os cuidados de seus filhos a outras pessoas (ou instituições), fazendo com que seus filhos permaneçam todo o dia em atividades que o ocupem e cansem, para que cheguem em casa apenas para dormirem?
Nessa ânsia de formá-los, como pequenos prodígio, para o mundo profissional (e como será esse mundo), estamos perdendo a oportunidade ímpar de criar uma conexão genuína com nossas crianças.
Muitas mães deixam os filhos em horário integral das escolas, para manterem suas carreiras profissionais, que muitas vezes não as nutrem. Não falo aqui daquelas mães que não tem escolha, que por uma necessidade triste e real, precisam deixar seus filhos, muitas vezes, para cuidar dos filhos de outras. Falo de um grupo, seleto (é verdade), que trabalha mais pelo dinheiro, do que pelo propósito, e abrem mão da presença com seus filhos, por um salário alto, apenas para gastarem seus recursos com roupas caras e cortes de cabelos desproporcionais. E quantos pais são ausentes na educação de seus filhos e que deixam recair sobre os ombros femininos toda a responsabilidade por essa missão?

Enfim, temos muitas famílias que não priorizam nem a quantidade e nem a qualidade do tempo com seus filhos e perdem a oportunidade ímpar de criar conexão, de conhecerem seus filhos, de observar seus gostos e talentos. São esses mesmos pais que, mais tarde, na adolescência, irão culpar os filhos por serem “fechados” e “misteriosos”.
Diante desse isolamento, filha, muitas dessas famílias se veem obrigadas a conviver mais. Estão tendo a oportunidade ímpar de rever suas prioridades, a se reinventarem e a reaprenderem a conviver. E quem sabe, lá no seu íntimo, possam repensar o modelo que escolheram para educar seus filhos.
Ao sairmos dessa experiência, talvez tenhamos pais mais engajados na educação de suas crianças e jovens (assim espero).

Sobre a dificuldade (e oportunidade) de ouvir meus sentimentos
Naquela sexta-feira, filha, enquanto eu chorava (compulsivamente), busquei escutar o sentimento que dominava meu coração. Pensei em frustração! Frustração por acreditar que eu, finalmente, conseguiria dar alguns passos rumo aos meus projetos de 2020 (depois de tanta procrastinação) e ter que adiá-los por mais um tempo.
E aí, a partir desse reconhecimento, existe um mundo de conflitos a ser desvendado.
Tive uma infância boa, mas, como muitos da minha geração, somos frutos de uma educação disciplinadora, em que “criança não tinha querer”. Crescemos educados, respeitosos e disciplinados (generalizando), no entanto, não sabemos reconhecer nossos próprios sentimentos. Nossos educadores, além de não validarem aquilo que sentíamos (porque criança era considerada como alguém que precisa ser doutrinado, assim como um pet), ainda classificavam os sentimentos em bons e ruins. E passavam a nos julgar por isso. Dessa forma, por medo de não sermos minimamente amados, íamos reprimindo a raiva, o ciúme, o rancor, a inveja, para não sermos rotulados como perversos. E esqueceram de explicar que sentir tudo isso é apenas humano.
Sendo educada nesse contexto, Eu sinto, até hoje, uma dificuldade abissal para compreender meus sentimentos. Muitas vezes eu apenas consigo perceber que não estou bem, mas fica difícil nomeá-los da forma correta. É preciso muita calma (e presença) para mergulhar nas sensações do corpo e buscar lá nas vísceras o sentimento que me domina naquele instante. Por isso, não sei te afirmar se o que senti foi, de fato, frustração.
Outro elemento importante: é extremamente difícil pra mim vencer a procrastinação. Ela é como uma força invisível que está sempre me arrastando pra baixo, por mais que eu planeje e estabeleça objetivos claros. Ela está sempre lá me dizendo que eu “não consigo”, “que não sou capaz”, “que é melhor esperar mais um pouco”, “que não sou boa o suficiente”, “que eu preciso me preparar melhor”. Eu sigo tentando, a cada dia, lutando com essas vozes internas que persistem em ficar. E aí, quando venço o medo de errar e me lanço, acaba sendo frustrante ter que recuar, pelas circunstâncias da vida.
Talvez por esse misto de coisas, é que eu tenha sentido meu coração tão apertado.
E olha que linda oportunidade o isolamento social nos trás. A chance de olharmos para esses sentimentos tão intensos que brotam lá do nosso íntimo. Parar, sentir, observar. Quem sabe depois, até nomear. Nos sentir humanos e abraçar toda essa confusão emocional como escola e aprendizado.

Sobre a minha missão no mundo
Meu último choro da noite foi bem sentido. Ele trazia uma angustia de enxergar as minhas potencialidades no sucesso do outro, e a dor de não conseguir sair do lugar. Eu assisti uma live entre a Rita Monte e a Lua Barros, e foi maravilhoso sentir o poder dessas duas mulheres que encontraram seu lugar ao sol e conseguem trazer ao mundo, genuinamente, a sua missão de vida. Eu também quero isso e acho que mereço. Desde os 20 poucos anos que me questiono e vou à luta pra conquistar aquilo que eu acredito ser a minha vocação. Não tenho medo de dar passos para trás, de recomeçar, de me refazer, de reconstruir. Mas apesar de todos os processos e todas as buscas, ainda não alcancei a resposta definitiva. Também nem acho que ela precisa ser definitiva!! Com tantas multipotencialidades, posso fazer muitas coisas. Mas gostaria de focar em algo que me ajudasse, pelo menos, a acender essa primeira chama! Aí depois fica mais fácil para a fogueira queimar!
Isso me consome tanto, filha. É tão difícil ter a convicção de que EU posso, EU quero. Mas nunca conseguir chegar até lá! É como navegar num mar sem fim, sem nunca encontrar a costa. Infelizmente, isso também tem a ver com a minha infância. Acho que faltou observação, faltou direcionamento, faltou nutrição. Com isso, cresci desconectada da minha essência e agora preciso mover montanhas para resgatá-la. Já me imaginei professora, psicóloga, terapeuta, facilitadora, consultora financeira, consultora de organização, pedagoga, pesquisadora, coach. Mas não consegui emplacar nenhuma dessas atividades. E estava justamente me preparando para tentar algo. Venci o medo do desconhecido e estava decidida a colocar alguns panfletos nos murais da UFJF oferecendo meu serviço de consultoria financeira. Mas aí vivenciamos essa pausa! E me fez repensar em tudo de novo.
O que eu sei é quero encontrar o meu lugar no mundo, trabalhar em algo que eu veja propósito e sentido. Algo que cause impacto em mim e nos outros, que faça brilhar a minha luz.
Por isso, diante dessa pandemia que nos obriga a se reinventar profissionalmente, que nos convida a olhar mais intimamente a nossa missão de vida para fazê-la florescer agora, nesse momento, eu me questiono mais uma vez: Qual a minha missao? O que vou deixar para o mundo como um legado?

Sobre a política atual
Além desse vírus mortal, o Brasil está desde janeiro de 2019 com outro vírus (e talvez este seja ainda pior). Trata-se do nosso Presidente da República, eleito pelo povo, para desespero de muitos. Trata-se de um ser esquisito, grosseirão, que não tem a menor capacidade (e maturidade emocional) para governar um país como o nosso. Mesmo diante dessa crise de saúde, ele consegue piorar a situação cada vez mais, com declarações esdrúxulas, posicionamento absurdo (favorecendo a economia em detrimento da saúde pública) e tomando decisões cada vez mais precipitadas. A situação é séria, filha, e eu gostaria de ter uma liderança mais preparada para lidar com isso. Apesar do medo da crise econômica, tenho mais medo da crise de saúde porque ela poderá levar embora muitas pessoas que amamos.
Diante da notícia de que ele iria demitir o Ministro da Saude (Dr. Mandetta) no meio da pandemia, eu tive medo. Senti uma mudança forte das minhas vibrações e percebi que estava mais irritada e mais ávida a olhar as notícias (que praticamente não vemos para não nos impressionarmos). No meu (pouco) entendimento, a equipe do Ministro estava fazendo um bom trabalho, seguindo as recomendações da OMS, assim como todos os países.
Todo esse conflito político me fez relembrar a polaridade absurda que vivemos na época das eleições. Foi um período energeticamente conturbado, filha, em que a sociedade brasileira foi equivocadamente dividida em apenas 2 setores: de um lado os Bolsominios e de outro os Petralhas. Nessa época eu já estava grávida de você e lembro de me revoltar com essa polaridade institucional, já que nenhum dos dois partidos (e candidatos) me representavam. E achava um absurdo que nosso país seria conduzido por um ou pelo outro. Tive uma sensação de não pertencimento incrível, como se eu não me encaixasse mais aqui. Uma vontade de pegar um foguete e ir para outro planeta. Pior também foi perceber que a polaridade viria de muitos amigos e parentes, o que me gerava mais ainda a sensação de não pertencer.
Esses sentimentos estavam já aquietados porque os dias iam passando e por mais imbecil que o Presidente seja, as exposições eram mínimas. E a minha busca pelas notícias também. No entanto, diante dessa pandemia, a figura voltou às manchetes de jornal. E voltou a falar e fazer besteira. Aí reaviva todo aquele sentimento e questionamentos. Quem são essas pessoas que escolheram essa criatura como presidente? O que motiva as pessoas a defenderem esse tipo, cujo comportamento é digno de pena? Que país é esse, que elege democraticamente um presidente com esse perfil? Por que pessoas próximas, que amo e admiro, foram capazes de votar nesse energúmeno?
De novo, voltei a me questionar todas essas coisas e a me revoltar com tudo isso. Infelizmente, filha.

Enfim, filha. Fico por aqui, na esperança de que esses registros nos sirvam de referência para um futuro mais bonito, mais justo e igualitário para todos. Que possamos fazer da experiência dessa pandemia, uma oportunidade de autoconhecimento, de amor e colaboração. Que apesar de todas as dificuldades e desconstruções que o vírus nos trás, que possamos nos manter saudáveis, firmes e fortes, para vivermos dias melhores e contarmos tudo isso para as próximas gerações que virão.

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