quinta-feira, 22 de abril de 2021

Voce ja se sentiu uma péssima mae (escrito em 30 Janeiro de 2021)

Filha,

Este episódio eu escrevi como parte da minha Biografia, processo que estou empenhada em fazer como parte do meu processo de autoconhecimento e cura. 

Que ele te ajude a compreender a minha humanidade e alguns dos processos descontrolados que vivi como sua mae. Te amo!

"Hoje é um desses meus dias. Estou me achando uma mãe terrível, descontrolada, vingativa e sem noção. Estamos de mudança e estou na fase da TPM do meu ciclo. Para além das expectativas, o medo do que está por vir e da bagunça espalhada pelos míseros 50 mt2 (fato este que me desestabiliza mesmo), Clarice está com o hábito (péssimo, de acordo com meu julgamento) de pedir água e jogá-la no chão imediatamente. Ontem consegui ser sutil ao explicar que ela não poderia fazer isso porque o chão fica molhado e podemos escorregar e etc...etc...Mas hoje, em meio ao caos instalado, amparado por duas tentativas frustradas de fazê-la dormir o soninho da manhã, não consegui me controlar. Dei uma sacudidela nos ombros dela e a empurrei para dentro do quarto, fechando a porta imediatamente.

Já logo em seguida, percebi a "burrada" que fiz. Mas ainda com o sentimento de raiva me dominado, entrei no quarto e tentei amamentá-la. Mas a ira ainda estava ali. E fui percebendo que, se não parasse a amamentação naquela hora, seria capaz de "abrir a caixa de pandora" e descontar na minha filha todo o cansaço, dificuldades de lidar com as próprias emoções e necessidades não atendidas que já arrasto há algumas semanas (ou talvez meses). Me pus a chorar e aí resolvi coloca-la em frente a uma tela, por considerar que os prejuízos desse ato (apesar dos pesares) seria menor do que o meu ímpeto de raiva.
Fiquei um tempo sozinha da sala para respirar. Ainda chorando me pergunto: Por que ainda não sou a mãe que eu gostaria?
E tem tanta reflexão, crenças limitantes, questões internas nesse questionamento, que seria assunto para 1 década de terapia "hard core".
Ontem mesmo eu pensei sobre isso! Hoje temos acesso a teorias  maravilhosa e o apoio de profissionais que nos trazem a reflexão sobre feridas emocionais, sobre a posição de vítima, narcisismo materno, codependência, neurociência infantil e tal. E a criança tem sempre razão!
Ultimamente, nesse meu portal da maternidade, tenho lido e feito muitos processos terapêuticos em que concordo e apoio todo essa visão da autoeducação como caminho único para um maternar mais leve e consciente. Mas por que "caralho" aquilo que lemos, aprendemos e digerimos racionalmente, não se torna um hábito consciente no dia-a-dia?
Eu mesma fiz a pergunta, e me dei uma resposta.
É porque nossas marcas da infância falam muito mais por nós, do que imaginamos. Essas sombras que estão lá, naquele baú escondido do nosso subconsciente, age mais rápido do que o lado racional do nosso cérebro pode prever. É porque para dar o que não tivemos (e nem tínhamos noção) precisamos mover montanhas e respeitar os nossos ritmos. Respeitar a nossa história, nossas derrotas e nossas vitórias. Valorizar as lutas diárias e a jornada, ao invés de imaginar um pódio de mãe ideal.
Isso eu entendo. Racionalmente! Mas não deixo de me achar uma péssima mãe por isso!!

Ainda na sala, fui me nutrir de materiais, através das redes sociais. A ementa foi pior que o soneto. Me vi lendo reflexões de mulheres mães que me inspiram e que estão realizando muito, seguindo e intuindo a sua essência e sendo luz pro mundo. E fazem isso com respeito a si mesmas e aos seus limites. Li também uma outra mulher inspiradora que colocou uma dedicatória muito amorosa pelo aniversário da mãe.
Foi aí que me senti mesmo o "coco do cavalo do bandido!!"
Estou eu aqui lutando dia a dia para não "socar" a minha criança. E essas mulheres maravilhosas vêm para estampar na minha cara um equilíbrio pleno e gentil, de ser mãe, profissional e mulher?! Ó céus!!! Chorei mais e resolvi deixar as redes sociais de lado.

Tentando catar os cacos da minha auto-estima pelo chão, pra tentar me recompor e "dar cabo" da maldita mudança, me vi pensando que ao menos 1 passo eu consegui dar. Diante da dificuldade, consegui pedir ajuda ao pai da criança e marido. Mandei uma mensagem e disse que eu não daria conta de "segurar" a  barra sozinha e que, teríamos que rever os planos e papéis na mudança, em função disso. Disse que estava naqueles dias de "vazio emocional" e que não era capaz de oferecer o que não tinha nem pra mim.
Aplausos de pé!!! Isso é um grande passo para alguém que, há uns meses atrás, teria sofrido sozinha e colocado a capa de guerreira pra fazer acontecer.
Não foi fácil, mas consegui estabelecer o meu limite. E pedir ajuda!!

Eu ainda me vangloriava dessa façanha quando minha filha desistiu do desenho no tablet e pediu para abrir à porta. Ao abrí-la, já me sentindo o "cocô do cavalo do mocinho", vejo o sorriso lindo dela, me recebendo de forma acolhedora. Chorei mais, dessa vez sentindo uma certa gratidão por esse ser de luz que me ama incondicionalmente, apesar de tudo.
Abraçadas e amamentando, eu pedi desculpas. Disse que eu entendia a agitação dela e que estava tudo bem. Que ela não era a culpada pelo meu desequilibrio emocional e que eu não estava num bom dia. Que eu me arrependia pelo rompante emocional e que eu estava tentando melhorar a cada dia, mas que a estrada é longa e, que por sermos humanos, sempre iremos falhar.

Minha filha dormiu, nos meus braços, antes mesmo que eu completasse meu desabafo. Coloquei-a na cama e vim escrever, para organizar minhas idéias e o coração. Quem sabe assim, ela, no futuro, possa processar mais rápido todo esse aprendizado que estou absorvendo na teoria. Mas que precisa ser incorporada na prática a partir de muito suor, lágrimas e desequilíbrios. 
Mas isso não é ser humano?"

Carta de desabafo

Filha,

Passei a semana pensando em te escrever essa carta, cujo conteúdo seriam meus processos dos últimos meses. Mas pela dificuldade de tempo (e força do destino) não consegui escrever. Mas hoje tornou-se inevitável! Sinto que preciso colocar aqui todas as emoções acumuladas nos últimos dias, como uma espécie de autoterapia. Vou usar esse local como forma de desabafar o que minha mente tagarela insiste em repetir. E para que você tenha recursos possíveis para trilhar seu próprio caminho de autoeducação, de uma forma que eu não tive. 

Segunda acordei menstruada, naquela expectativa mensal de dias com cólica intensa, baixa energia e dores de cabeça. Eu e seu pai organizamos a semana como forma de me poupar ao máximo, já que eu sentia minha paciência menor desde o Domingo. Essa é uma das grandes vantagens de observarmos nosso corpo durante um tempo, filha. Nos permite ajustar os tempos e ritmos para o que esta no porvir. Além disso sentia um aperto no peito, uma angustia, como se uma onda gigante estivesse me afogando, e eu na tentativa incessante de respirar. O fato de ter olhado as redes sociais logo pela manha talvez tenha intensificado essa angustia. Tive uma sensação de ser a única mulher no mundo com a vida estagnada, sem movimento. Uma frustração pulsante de nao pertencimento, de solidão, um deserto emocional sem precedentes. Ver tanta gente realizando, apesar de tudo, acessou aquela minha inveja "proibida" desde a infância que eu tanto recriminei com medo de nao ser amada. Ainda senti aquela frequente angustia dos ritmos alterados, e da permanente dificuldade de nao ter espaços e tempos para "beber a vida em um gole só", como eu gostaria. E perceber a vida acontecendo lá fora, me trás uma certa revolta, ao mesmo tempo que repudio essa loucura que nos transformamos como sociedade, sempre correndo atrás de tanta coisa.

Na própria segunda, filha, acessei alguns portais. Percebi novamente a minha grande dificuldade em dizer "nao" e ter, no momento correto, o discernimento para conseguir respeitar meus ritmos e quereres. Digo isso porque estou presa nos últimos sábados numa jornada, elaborada por uma amiga, que está me demandando um tempo e também dinheiro que, certamente, investiria em outras coisas. Nao que o processo nao esteja sendo bacana. estou adorando e aproveitando bastante. Mas percebi que eu disse "sim" muito mais para valorizar a amiga do que por mim mesma. São tantas outras coisas que quero fazer: um curso de cura da criança interna ferida, um curso sobre desmame gentil (porque estamos num processo bem difícil juntas), uma consultoria financeira, enfim.....tanto por fazer. E ainda estou com 3 cursos pagos e ainda pendentes! O que trás aquela sensação de ansiedade por tanto ainda a fazer (sem previsão para solução). Além disso, me comprometi com essa mesma amiga que faria um e-book e um dossiê. E depois ela acabou dividindo as entregas entre eu e sua prima. E a prima já começou a desenvolver o dossiê e eu nem comecei a esboçar o e-book. Ela se mostrou ansiosa com isso e eu entrei numa neura de comparação, a mesma daqueles tempos de empresa, e produtividade etc. Coisa doida, filha!! Mas foi importante acessar e estou com vontade de falar isso pra ela. E me permiti apenas nao me fazer de guerreira e disse que nao conseguiria fazer uma reuniao proposta na segunda. Queria sentir e decantar esses meus processos internos.

Sobrevivemos à segunda (sem muitas escoriações) e na terça resolvi sair de casa com seu pai para quebrar o ciclo de impaciência. Foi ótimo porque terminamos num passeio delicioso pela roça, apesar da ansiedade insistir em ficar, mesmo diante de uma paisagem tão bucólica. Na quarta, já sem cólicas e dor de cabeça, me vi mais impaciente do que segunda, e um sentimento, uma necessidade de expor minhas emoções, de conversar com seu pai sobre as minhas inseguranças. Resolvi sair de casa junto com ele e funcionou para "quebrar" o ciclo. Nos divertimos, me afundei no açúcar (como de praxe) e me senti melhor. A ponto de conseguir resistir com respeito e empatia ao seu choro incessante por nao querer viajar na cadeirinha. Acolhi você com carinho e respeito durante todo o retorno. 

Hoje foi um dia triste demais, filha. Logo depois do café da manha, recebemos a notícia de que o primo Bruno havia partido desse plano. Bem no dia do seu aniversário de 39 anos, deixando esposa e filhos pequenos. Foi como um tiro no meu peito. Chorei, muito! E ainda sem processar a partida dele, me conectei com meus medos e anseios profundos. Pensei que poderia ter sido com qualquer um de nós. Pensei na dor de uma mãe perder um filho e percebi de que isso pode acontecer conosco. Acessei essa chave de que nao há controle sobre nada, muito menos sobre a vida. Lembrei a minha madrinha e de tudo o que ela ainda poderia ter vivido. Acessei a raiva por esse governo irresponsável e fascista e por todos aqueles que ainda o apoiam. Acessei tantas questões, e as minhas próprias necessidades na atendidas, já que precisava de um tempo para colocar meus pensamentos em ordem, meditar, mas você nao dormiu, nem pela manha e nem à tarde. 

Depois que seu pai saiu para trabalhar, tudo ficou mais turvo ainda. Tive uma sensação de solidão tão forte que chorei e chorei, com você no colo, pedindo para que pudesse me trazer um tempinho, qualquer que fosse, para eu juntar meus cacos e seguir em frente. Mas nao rolou, filha! E precisei usar a TV para manter as suas necessidades minimamente atendidas e meu humor respeitoso. Pedi ajuda a seu pai, porque sabia que nao daria conta de um dia inteiro sozinha. Ele chegou somente às 18:00, mas consegui (minimamente) sobreviver até lá. Com a ajuda de uma panela de brigadeiro, é claro!!

O dia chegou ao fim e ainda estou processando muita coisa. Voce dormiu, extremamente cansada. Espero que tenhamos uma noite boa, filha. Te agradeço por hoje ter sido compreensiva em tantos momentos. E peço desculpas por, tantas vezes, nao enxergar seus esforços. É difícil pra voce, mas também é dificil pra mim. Hoje, somente por hoje, consegui nao descontar em voce minhas próprias questões. Talvez eu tenha te negado colo ou atençao em alguns momentos e voce tenha se sentido rejeitada, ou abandonada. Mas hoje eu fiz aquilo que estava ao meu alcance.

Prometo que amanha, com meus cacos talvez já colados, farei o mesmo esforço de continuar ouvindo minhas emoçoes, aprendendo com meus processos, sem que isso magoe voce.

Até amanha!!

O que eu observo em você 5

  Filha, O tempo está passando mais rápido o que nossa consciência pode perceber. Aqui pela floria, acabamos e viver a experiência o nosso...