Filha,
Passei a semana pensando em te escrever essa carta, cujo conteúdo seriam meus processos dos últimos meses. Mas pela dificuldade de tempo (e força do destino) não consegui escrever. Mas hoje tornou-se inevitável! Sinto que preciso colocar aqui todas as emoções acumuladas nos últimos dias, como uma espécie de autoterapia. Vou usar esse local como forma de desabafar o que minha mente tagarela insiste em repetir. E para que você tenha recursos possíveis para trilhar seu próprio caminho de autoeducação, de uma forma que eu não tive.
Segunda acordei menstruada, naquela expectativa mensal de dias com cólica intensa, baixa energia e dores de cabeça. Eu e seu pai organizamos a semana como forma de me poupar ao máximo, já que eu sentia minha paciência menor desde o Domingo. Essa é uma das grandes vantagens de observarmos nosso corpo durante um tempo, filha. Nos permite ajustar os tempos e ritmos para o que esta no porvir. Além disso sentia um aperto no peito, uma angustia, como se uma onda gigante estivesse me afogando, e eu na tentativa incessante de respirar. O fato de ter olhado as redes sociais logo pela manha talvez tenha intensificado essa angustia. Tive uma sensação de ser a única mulher no mundo com a vida estagnada, sem movimento. Uma frustração pulsante de nao pertencimento, de solidão, um deserto emocional sem precedentes. Ver tanta gente realizando, apesar de tudo, acessou aquela minha inveja "proibida" desde a infância que eu tanto recriminei com medo de nao ser amada. Ainda senti aquela frequente angustia dos ritmos alterados, e da permanente dificuldade de nao ter espaços e tempos para "beber a vida em um gole só", como eu gostaria. E perceber a vida acontecendo lá fora, me trás uma certa revolta, ao mesmo tempo que repudio essa loucura que nos transformamos como sociedade, sempre correndo atrás de tanta coisa.
Na própria segunda, filha, acessei alguns portais. Percebi novamente a minha grande dificuldade em dizer "nao" e ter, no momento correto, o discernimento para conseguir respeitar meus ritmos e quereres. Digo isso porque estou presa nos últimos sábados numa jornada, elaborada por uma amiga, que está me demandando um tempo e também dinheiro que, certamente, investiria em outras coisas. Nao que o processo nao esteja sendo bacana. estou adorando e aproveitando bastante. Mas percebi que eu disse "sim" muito mais para valorizar a amiga do que por mim mesma. São tantas outras coisas que quero fazer: um curso de cura da criança interna ferida, um curso sobre desmame gentil (porque estamos num processo bem difícil juntas), uma consultoria financeira, enfim.....tanto por fazer. E ainda estou com 3 cursos pagos e ainda pendentes! O que trás aquela sensação de ansiedade por tanto ainda a fazer (sem previsão para solução). Além disso, me comprometi com essa mesma amiga que faria um e-book e um dossiê. E depois ela acabou dividindo as entregas entre eu e sua prima. E a prima já começou a desenvolver o dossiê e eu nem comecei a esboçar o e-book. Ela se mostrou ansiosa com isso e eu entrei numa neura de comparação, a mesma daqueles tempos de empresa, e produtividade etc. Coisa doida, filha!! Mas foi importante acessar e estou com vontade de falar isso pra ela. E me permiti apenas nao me fazer de guerreira e disse que nao conseguiria fazer uma reuniao proposta na segunda. Queria sentir e decantar esses meus processos internos.
Sobrevivemos à segunda (sem muitas escoriações) e na terça resolvi sair de casa com seu pai para quebrar o ciclo de impaciência. Foi ótimo porque terminamos num passeio delicioso pela roça, apesar da ansiedade insistir em ficar, mesmo diante de uma paisagem tão bucólica. Na quarta, já sem cólicas e dor de cabeça, me vi mais impaciente do que segunda, e um sentimento, uma necessidade de expor minhas emoções, de conversar com seu pai sobre as minhas inseguranças. Resolvi sair de casa junto com ele e funcionou para "quebrar" o ciclo. Nos divertimos, me afundei no açúcar (como de praxe) e me senti melhor. A ponto de conseguir resistir com respeito e empatia ao seu choro incessante por nao querer viajar na cadeirinha. Acolhi você com carinho e respeito durante todo o retorno.
Hoje foi um dia triste demais, filha. Logo depois do café da manha, recebemos a notícia de que o primo Bruno havia partido desse plano. Bem no dia do seu aniversário de 39 anos, deixando esposa e filhos pequenos. Foi como um tiro no meu peito. Chorei, muito! E ainda sem processar a partida dele, me conectei com meus medos e anseios profundos. Pensei que poderia ter sido com qualquer um de nós. Pensei na dor de uma mãe perder um filho e percebi de que isso pode acontecer conosco. Acessei essa chave de que nao há controle sobre nada, muito menos sobre a vida. Lembrei a minha madrinha e de tudo o que ela ainda poderia ter vivido. Acessei a raiva por esse governo irresponsável e fascista e por todos aqueles que ainda o apoiam. Acessei tantas questões, e as minhas próprias necessidades na atendidas, já que precisava de um tempo para colocar meus pensamentos em ordem, meditar, mas você nao dormiu, nem pela manha e nem à tarde.
Depois que seu pai saiu para trabalhar, tudo ficou mais turvo ainda. Tive uma sensação de solidão tão forte que chorei e chorei, com você no colo, pedindo para que pudesse me trazer um tempinho, qualquer que fosse, para eu juntar meus cacos e seguir em frente. Mas nao rolou, filha! E precisei usar a TV para manter as suas necessidades minimamente atendidas e meu humor respeitoso. Pedi ajuda a seu pai, porque sabia que nao daria conta de um dia inteiro sozinha. Ele chegou somente às 18:00, mas consegui (minimamente) sobreviver até lá. Com a ajuda de uma panela de brigadeiro, é claro!!
O dia chegou ao fim e ainda estou processando muita coisa. Voce dormiu, extremamente cansada. Espero que tenhamos uma noite boa, filha. Te agradeço por hoje ter sido compreensiva em tantos momentos. E peço desculpas por, tantas vezes, nao enxergar seus esforços. É difícil pra voce, mas também é dificil pra mim. Hoje, somente por hoje, consegui nao descontar em voce minhas próprias questões. Talvez eu tenha te negado colo ou atençao em alguns momentos e voce tenha se sentido rejeitada, ou abandonada. Mas hoje eu fiz aquilo que estava ao meu alcance.
Prometo que amanha, com meus cacos talvez já colados, farei o mesmo esforço de continuar ouvindo minhas emoçoes, aprendendo com meus processos, sem que isso magoe voce.
Até amanha!!