Filha,
Hoje mais uma vez acordamos cedo. Tentei sustentar mais uma vez o seu choro, negando meu peito, porque a exaustão já dobra a esquina de tão longa.
Nao consegui!
Acabei cedendo e você me ouvia falar, olhando profundamente, como se desvendasse o que habita o profundo da minha alma.
Mas cedi consciente, entendendo que havia espaço para o diálogo, mas que aquele nao era o melhor momento. Aí pensei....muito.....em tantas coisas.
Pensei nesse momento que estamos vivendo e o que essa lua cheia veio me mostrar. Pensei no meu último ciclo menstrual e em tudo o que ele trouxe à tona: dor e necessidade de expulsar tudo o que nao serve mais e que estava aqui dentro.
Também pensei nas mudanças que viveremos, iminentes. E um pequeno sorriso de esperança chegou no rosto. Eu gosto de mudanças, por mais que os medos sejam intensos. Mas o medo da mudança eu já me acostumei a habitar. Tenho medo de outros medos. De nao realizar, de nao viver plenamente a minha autenticidade, o meu protagonismo.
Ai começamos a nos espreguiçar e a brincar juntas na cama e meus pensamentos se foram para os aprendizados que estão chegando tão profundamente nesse mês que acaba. Lembrei o quanto é difícil ser criança nesse mundo feito para adultos. Pensei no quanto nos distanciamos dessa maravilha que é ser autentico e verdadeiro em nossa essência, fazendo valer nossas necessidades. Nós, adultos, nos incomodamos com isso. E percebo isso em cada rótulo que escuto dos seus avós. Também vejo o quanto eles estão imersos em suas próprias rotinas escravizantes, ao ponto de nao conseguirem se conectar minimamente com seus pedidos de atenção e brincadeiras.
O convite está ali, diante dos seus pequenos dedinhos. Mas eles nao tem a sensibilidade para aceitar e nao se permitem "permitir".
Aí pensei na tal rede de apoio, Filha. E o quanto do meu legado e missão nao está relacionado a isso, na construção dessa rede de apoio capaz de olhar para esses pequenos milagres que as crianças nos convidam, diariamente. Agradeci por isso!! Agradeci nessa manha por estar aberta a aceitar esse seu convite e vivenciar esses pequenos milagres.
Nem sempre consigo! E o cansaço é o grande responsável por esse descuido. Mas nao canso de pensar que o conceito de "aldeia" existe para isso. Para que o outro assuma, quando um já nao consegue mais usar a lente da ludicidade. Ontem vivenciamos uma situação assim. Eu já estava cansada de um dia cheio de problemas, e na hora de dormir, sugeri que você desse boa noite pra vovó. Você resistiu e eu nao consegui pensar em outra forma de te convencer. Ia, simplesmente, ceder e dormir. Sua tia, que é uma grande educadora, viu dois chapéus pendurados na parede e sugeriu usar no boa noite pra vovó. Você, prontamente, topou. E abriu um sorrisão contente para a tal missão. E eu fiquei ali, só observando, e agradecendo por ter uma tia Elaine naquele finalzinho de dia, que o cansaço nos abraça valente. E hoje, relembrando essa situação, pensei o quanto é importante podermos vivenciar momentos como esse, para que possamos lhe proporcionar uma vida leve, cheia de significado e conexão. Essa rede lúdica que apoia e sintoniza na mesma energia de educação, ajuda a transformar a vida de todos: os pais, os filhos, o mundo.
Mas isso é tão raro, filha! Tao raro!!! E lamento porque ainda nao temos o mundo com esse olhar. Com essa sensibilidade para ver o mundo pela ótica das crianças. Seria tão maravilhoso! Ao invés disso, temos esse olhar do adulto que está sempre querendo "consertar" as crianças, como se elas estivessem sempre erradas pelo seus comportamentos que, mais das vezes, são apenas curiosidades e interações com o mundo.
Ainda nessa manha florida, em que tomamos café felizes, cheias de brincadeiras e abraços, também pensei que nosso papel, como pais, é sermos jardineiros, cujo trabalho é cuidar da terra para que ela seja fértil e estabelecer os limites de cuidado para que cresça com assertividade. As crianças são como sementes, cujo potencial pra brotar já está ali inscrito e intuitivamente estabelecido. Nessa relação simbiótica, nao é trabalho do jardineiro mudar a semente. Promover essa mudança seria agir contra a natureza e as surpresas que ela nos reserva. O papel do jardineiro é criar contornos e manter o solo fértil para que essa semente venha a realizar todo o potencial do "vir a ser".
Mas infelizmente vivemos (ainda) num mundo em que os adultos querem alterar a semente e estabelecer o que elas precisam ser (ou ter, o que é ainda pior).
Triste, filha. Além de preocupante!!
E eu sigo aqui, Clarice. Tentando ser jardineira todos os dias. Tentando ver a vida através do seu olhar de criança, num mundo totalmente novo. Eu falho muito!! Mas tenho uma tal consciência que me faz voltar ao eixo, mesmo depois de uma tormenta tão grande. Eu peço desculpas e sei reconhecer meus erros. Porque no final das contas o que mais importa é sermos humanos.
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