Filha,
Hoje senti uma raiva imensa de você. Me sinto um pouco envergonhada de expor essa minha vulnerabilidade assim, dessa forma. Mas senti! E acho importante você saber porque isso faz parte da minha humanidade.
Senti raiva porque você nao dormiu a noite toda e me exigiu uma sobre energia para te amamentar tanto.
Tive raiva porque você acordou as 6:30, cheia de energia e sem qualquer mágoa pela confusão da madrugada.
Senti raiva porque você nao aceitou pacifica que eu lhe colocasse suas meias e sandália. Também por você pedir milho tão cedo.
Senti raiva, principalmente porque você me fez ver as sombras ainda tão profundas que me permeiam, e toda a minha falta de amor na infância.
Também senti raiva por essa energia sem fim, e pela luta contra o sono, sempre frequente.
Mas também senti raiva de mim. Por nao ser tolerante com o seu jeito criança. Por me sentir tão selvagem e intolerante. Por ainda nao ter esse amor tão genuíno que você tem com tanta facilidade.
Senti raiva de mim, muita raiva, por te olhar tão gentil e fofa, mesmo depois de receber tanta violência. Gratuita!
E chorei, filha. Pensando que "você é apenas uma criança, tentando viver nesse mundo de adultos".
Hoje também senti raiva do mundo. Dessa solidão materna tão profunda. Desse mundo que inviabiliza a mãe e a torna a responsável por tudo.
Senti raiva do carro do camarão, do ferro-velho, do hortifrúti. Tive raiva de todos os ruídos do mundo que te acordavam sempre que eu insistia em faze-la dormir.
Senti raiva do momento que estamos vivendo e desses medos que estão em erupção como um vulcão adormecido há anos.
Senti raiva da minha infância, dos seus avós e dessas feridas tão profundas que me impedem de ser amorosa com você, tanto quanto eu gostaria.
Senti raiva de todos os adultos do mundo, por nao perceberem o quanto fazemos mal a vocês, crianças, porque crescemos ouvindo que criança "manipula", e que precisa ser tolhido
Senti raiva por todo o sentimento de desamparo e nao pertencimento que possuo e por essa luta cruel que travo todos os dias com a minha própria consciência e as vozes internas.
Hoje eu senti raiva, filha. Muita raiva! E chorei tudo o que queria, para que as lágrimas pudessem levar essa raiva embora. E lavar minha alma!
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