Filha,
Eu hoje precisava vir aqui, lhe
escrever essa carta, que há tanto tempo escrevo nos meus próprios pensamentos. O
sentimento interno é de ambivalência, e entre lavar o banheiro (que já acumula
mosquitinhos voando), ler um livro ou atualizar os gastos do mês, sinto que
preciso desabafar com você. Isso também me ajuda a organizar os pensamentos do
dia e olhar para essa dor no corpo que o enrijece completamente.
Estamos atravessando dias
difíceis. As coisas estão melhorando e as perspectivas de um futuro melhor
também, mas ainda assim, eu e seu pai estamos com dificuldades na relação com você.
A cada dia, sua personalidade floresce e eu me encanto com sua forma de permear
o mundo. No entanto, sinto que o fato de estarmos quebrando tantos paradigmas,
nos enfraquece um pouco, seja porque não temos rede de apoio, seja porque
lutamos com nossos dragões internos diariamente.
Sua adaptação na escola não foi
como o esperado: responsabilidade nossa de ter criado essa expectativa pelo
simples fato da educação com apego que escolhemos. Mas é natural que você esteja
ansiosa com todas essas mudanças, mas idealizamos que seria tão mais suave, que
ficamos nesse lugar de pena ou questionamentos. Além disso, acredito que você esteja
percebendo o movimento do desmame, que precisei recuar para me sentir mais
fortalecida. E esse processo tem me mostrado pontos da nossa relação, que
talvez eu ainda não tivesse olhado.
- a amamentação é um lugar de paz
para mim, em que consigo me conectar e te acolher sem tanto esforço e onde
consigo mantê-la sob controle, sem emanar tanta energia. Mudar essa dinâmica já
estabelecida e internalizada está ‘mexendo’ com as minhas bases e fazendo eu me
sentir incapaz;
- talvez não seja tão fácil pra
mim me conectar com você para além do ‘mamainho’. Eu julgava sua avó por isso em
observá-la interagindo com você, mas percebo que tenho essa dificuldade muito
mais do que imaginava. Consigo sentar e brincar, mas percebo que a minha qualidade
de presença é limitada. Estou sempre com os pensamentos em mil lugares
distintos, e perco a oportunidade de simplesmente ‘estar’ ali com e pra você;
- é possível que a amamentação tenha
servido para nutrir a minha criança interna, muito mais do que você. Pela ausência
de me sentir amada, fiz da amamentação uma grande bandeira e me orgulho do que
construímos até aqui. Mas percebi que, neste campo, estou sendo a mãe que eu
gostaria de ter tido e não a mãe que você precisa. E isso me dói demais.
Você está numa fase em que testa
os limites: os seus, os meus e os nossos. E embora eu e seu pai saibamos que não
se trata de algo premeditado, apenas um período que faz parte do seu
desenvolvimento natural, as lutas com nossas feridas internas são tão intensas,
que perdemos o controle facilmente diante da menor situação. Somos violentos
com os gestos e com as palavras, e quando nos damos conta, já foi tarde demais.
Basta-nos pedir desculpas e amargar a reflexão do aprendizado.
Ontem, filha, aconteceu um episódio
triste, que queria compartilhar com você: a manhã e tarde foram difíceis. Você estava
sensível, pelo sono e pelo momento desafiador da casa e juiz de fora, que
estamos atravessando. Por duas vezes tentei ‘escapar’ do quarto, enquanto vc
tirava a soneca. Mas nas duas tentativas você acordou. Já eram 15 horas e a
fome batia forte. Na segunda vez resolvi me posicionar: fui gentil, mas te
expliquei que eu precisava comer, porque precisava cuidar de mim para cuidar de
você. Essa dedicação completa me ‘tira do sério’, seja porque estou me esforçando
para dar algo que não tive, seja porque me sentir anulada em todos os sentidos
me fere profundamente, além de saber que isso não é saudável nem pra mim e nem
pra você. Mantive a minha posição, mas você protestava e eu lutava com as vozes
da minha infância para não ser (mais uma vez) violenta. Em um determinado
momento, eu chorei. Porque percebi minha dificuldade de manter essa posição de conexão
com amor, gentileza, mas firmeza. Imediatamente, você parou de chorar. E como
um adulto que empatiza com o outro, começou a me beijar e abraçar. Eu continuava
chorando com você nos braços, enquanto explicava que minhas lágrimas não eram
culpa sua. Que eu era adulta e que era responsável por aquilo que sentia, mas
que estava com dificuldades de ser respeitosa com você e isso me doía.
Nos conectamos, finalmente, e
tudo flui melhor.
No entanto, fiquei me questionando
até que ponto não estou passando pra você o sentimento de que preciso ser
cuidada, de que você é responsável por essas lágrimas, transferindo assim as
minhas próprias dores de infância, a minha codependência que ainda não tive
coragem de mergulhar. Foi bom voltar ao prumo e não ser irracional (como tantas
vezes), mas também não quero que você cresça se sentindo responsável por mim.
Além dessa situação, muitas
outras se acumulam, na incerteza se estamos seguindo no caminho certo. Percebo que
você necessita de limites claros, mas muitas vezes não somos capazes de
estabelece-los com firmeza e gentileza. Muitas vezes também sinto que me falta
observar mais você e ser mais responsiva com as suas reais necessidades. Outro
dia, por exemplo, acabei ‘estourando’ porque você correu pra rua. Eu já havia
percebido em outras ocasiões, o que o medo de perder você (ou algo de ruim
acontecer), é um gatilho para que eu perca o meu controle emocional. Além disso,
misturou-se ao meu medo do julgamento alheio e das pessoas que estão a volta. Fui
muito violenta com você e, fiquei tão nervosa, que me faltou ar. Depois, em
casa, refletindo sobre o ocorrido, percebi que eu não soube ler o seu cansaço. Você
estava muito cansada e encontrou nessa brincadeira perigosa, uma forma de me
mostrar isso. Mas eu não consegui captar. E percebo que muitas vezes não consigo
fazer essa leitura adequada. Aí depois sobra a culpa e o arrependimento por ter
sido rude novamente.
Na nossa história, filha, ainda
existem muitos episódios de violência, embora nos esforcemos tanto para fazer
nosso melhor. Mas estamos seguindo, filha, e aprendendo a cada dia ser um pouco
melhor, observar melhor as suas necessidades e enfrentar nossos vazios para que
eles não sejam refletidos em você. Nessa estrada, ainda cairemos muitas vezes. Mas
na certeza de que o amor é infinito e que poderemos construir muitos diálogos quando
você decidir trilhar o seu próprio caminho de autoconhecimento.
Nenhum comentário:
Postar um comentário