terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

A luta para dormir

Filha,

Todos os dias, durante o dia (um pouco menos) e durante a noite você trava uma batalha inglória com o sono. Coça os olhos, choraminga de cansaço, pede colo e passamos horas na tentativa difícil de fazê-la adormecer mais cedo. A cada dia tentamos novas técnicas: já passei o jantar para mas cedo, massagem após o banho, música clássica sempre tocando e muitos outros truques para fazê-la adormecer tranquila. Todos os esforços são em vão! Passamos horas nessas incansáveis tentativas e, muitas vezes, perdemos o "fiapo" de paciência que nos resta, após um dia exaustivo de atividades.
Mas já há alguns dias que tenho pesquisado sobre isso e ando refletindo qual a minha responsabilidade sobre isso. Existem diversas teorias que pregam que a dificuldade de dormir e os frequentes despertares noturnos, tem relação com a necessidade de conexão emocional do bebe com a mãe. 
Meu Deus!! Hoje chorei pensando onde eu possa estar falhando. Será que são as minhas frequentes vistas no celular? Será que é a minha ansiedade e vontade de ver você dormindo para que eu possa fazer coisas na casa e para minha vida? Será que não estou te dando atenção o suficiente durante as horas seguidas que passo sentada com você, brincando no seu quarto? O que pode ser?
Bateu uma culpa, sabe!! E um desânimo também. Porque penso que me dedico tanto a você. E é duro perceber que talvez não seja o suficiente. 

Por isso, filha, vou observar mais. Nos próximos dias vou buscar maior conexão entre nós duas. Vou deixar o celular de lado e estabelecer mais diálogos com você. Não quero, de forma alguma, permitir que você cresça com o sentimento de ausência. Isso seria bastante frustrante para mim. Quero que você cresça na certeza que eu te amo e te aceito do jeito que você é, com todas as suas virtudes e defeitos. Espero que você cresça num ambiente que lhe permita se conectar com a sua essência, para que você se conheça e se ame. Espero oferecer esse tanto que eu nunca tive. E aí é que está o grande desafio. 

Mas vamos conseguir, filha. Eu acredito que conseguiremos.

Para seu pai (escrito em 30/01)

Amor, Os últimos dias têm sido difíceis. Ambos estamos tentando ser a nossa melhor versão, para que possamos viver com plenitude toda essa bênção que recebemos. Sei que somos gratos na maior parte do tempo. Mas as vezes é difícil lutar contra nossas imperfeiçoes, deixar de lado nossos impulsos mais selvagens. Hoje eu queria te falar em palavras escritas aquilo que, muitas vezes, não consigo falar em palavras ditas. A maternidade me transformou! Desde o nascimento da Clarice que sinto uma avalanche de sentimentos, que ora são maravilhosos e enchem meu peito de gratidão, e ora são duros e me revelam o lado mais sombrio da minha alma. A cada dia estabeleço uma luta interna, na busca de me tornar um ser melhor. Tento refletir e sentir a cada experiência diária todos os sentimentos que vem à tona na convivência diária com a Clarice. Essa tal maternidade é uma completa montanha russa. Tem dias maravilhosos e outros sombrios. E não adianta eu tentar lutar contra isso. Só me resta aceitar e usar minhas sombras, que surgem a cada dia, nesse processo de autoconhecimento que eu escolhi, para que eu possa ser melhor pra ela e por todos nós.Hoje, depois da nossa briga eu percebi que preciso te falar certas coisas, ser mais clara em alguns aspectos. 
  • Eu mudei! Não há como voltar atrás e recuperar aquela “Rosane” do passado. Ser mãe me transformou completamente. E pode apostar que isso é tão perturbador pra mim quanto pra vc. E nesse processo, já não reconheço mais a mulher quem eu era e estou na busca frequente de reconhecer a mulher que hoje sou. Às vezes eu gosto dessa nova versão, às vezes eu a odeio e na maior parte do tempo eu tenho medo de tudo isso. Diante de tantas incertezas, eu sigo nesse caminho que escolhi com tanta vontade, sem qualquer arrependimento.
  • Eu só tenho essa nova versão a oferecer a vocês! É uma luta inglória tentar retomar a mesma paciência e tranquilidade que eu tinha antes. Por mais que eu tente (e acredite, estou me esforcando muito pra isso) ser mais paciente com você, levar na brincadeira certas “cutucadas” e fazer vista grossa para coisas que me incomodam, se tornou impossível. Estou te oferecendo o máximo que eu posso nesse momento. Por isso, lhe peço: não exija mais do que isso nesse momento. Pode ser que as coisas melhorem, que nessa minha caminhada de busca, eu recupere um certo autocontrole e, como antes, eu tenha mais paciência para lidar com vc. Mas reafirmo que hoje, isso é tudo o que posso te oferecer: estar tranquila alguns dias e em outros estar raivosa e sensível demais. Esse é meu novo Eu. E não adianta esperar mais do que isso. Não seria justo nem comigo e nem com vc. Entenda que não quero descontar em você. Mas vivo meus dias imersa numa fusão emocional com uma bebê que me demanda mais do que eu tenho e do que recebi em toda a minha vida. Isso é maravilhoso, mas assustador ao mesmo tempo. Aquela Rosane paciente, disposta a quebrar os ciclos de “grosserias”, ligada no bem estar de todos, que te espera pra comer, pra dormir, que faz gentilezas sutis e que tem o foco no “cuidar”, que tem todas as respostas já não consegue mais fazer isso. Por isso, nos dias mais difíceis preciso de amparo, de colo, de afeto. Entendo que terão dias que você vai conseguir. Em outros não, e seguimos assim errando e acertando como em tudo na vida.
  • Eu entendo e reconheço o seu esforço. Não estamos em uma disputa de vida em que precisamos definir quem se esforça mais do que o outro pelo bem comum. Que possamos ter isso sempre em mente para que a gente consiga quebrar esse ciclo de necessidade de reconhecimento que ambos trazemos da nossa infância. Eu entendo e reconheço todo o esforço que você está fazendo para manter o bem estar da nossa família. Sei o quanto é duro o seu trabalho e o quanto vc está se esforçando para conquistar nossos sonhos de vida e nossa independência financeira. Isso foi um projeto que construímos juntos e me orgulho pelo que você tem conquistado até aqui. Mas os esforços são feitos pelos dois lados. E ainda que a gente não fique repetindo isso um ao outro, temos que ter essa certeza diariamente.
  • Preciso que você aprenda a aceitar essa nova versão, ao invés de desejar o retorno das características que eu tinha antes. Se você não for capaz de aceitar essa minha nova versão, seguiremos num caminho tortuoso de desconexão. E nós dois não queremos isso! Por isso eu proponho que ambos estejam aberto a aprender com essa nova vida que se abre. Que possamos trilhar essa nova estrada de reconexão e que possamos transformar ainda mais a nossa relação que era boa, para que ela seja melhor ainda. Que possamos respeitar as rotinas do outro e continuar aprendendo com o outro, cada dia mais.
Acho que é isso! Espero que possamos continuar aprendendo com esses nossos erros, que nos ensinam e nos fortalecem.

Cura (escrito em 30/01)

Filha,Essa carta é mais para mim mesma do que para você. Talvez esteja escrevendo para a minha criança interior que ficou esquecida lá atrás e que, agora, clama por um pouco de atenção.
Há pelo menos 8 anos, filha, eu tinha tomado a decisão de deixar meu trabalho por alguns anos para ser mãe. Pelo fato de ter adiado por tantos anos essa experiência de vida, eu queria poder me dedicar a ela de forma exclusiva, sem ter que lidar com aquelas dores acessórias de ter que trabalhar para nos sustentar ou ter que dividir meu tempo entre meus filhos e os outros pilares da vida. E fui estabelecendo minhas metas dentro dessa lógica.
Os planos não saíram exatamente da forma como planejei. Mas elas aconteceram no seu tempo certo e hoje sou apenas mãe. E apesar de toda a gratidão que sinto por esse momento, não imaginava que passaria por tantos outros processos. Desde que você nasceu que sou uma mistura de felicidade e mudanças. Não me reconheço mais naquela que eu era. E nem mesmo nas escolhas e decisões que fiz. Não existe arrependimento! De forma alguma! Mas é que a maternidade abriu um baú repleto de coisas antigas que eu vasculho todos os dias. Tem dias que o que sai desse baú é lindo, perfumado e colorido. Tem dias que o que o que eu reviro é negro, feio e assustador. Tudo isso porque você faz ressoar isso, sem nem perceber. Foi com a maternidade que descobri o que é descortinar as sombras. Como é complexo a gente desejar ser uma coisa e, no momento da irritação e do desespero, aperceber-se agindo de uma outra forma, repetindo aqueles padrões que a gente luta para nem enxergar. Foi a partir de você que me deparei com a minha criança interior ferida e todo o abandono emocional que ela sofreu. E tem dias, filha, que sinto um vazio tão grande que o choro é inevitável. 
Essa semana foi dura. Em vários momentos me deparei com momentos em que essa criança veio ao meu encontro. Em alguns, consegui romper e me reconectar com vc. Em outros, simplesmente explodi. E depois chorei dentro da minha solidão e da culpa de querer fazer diferente e não conseguir.
Na segunda você fez um coco enorme. Tão grande que a única alternativa era levar você para um banho. A banheira já estava preparada e coloquei vc naquela água fria. Vc logo reclamou. E aí eu fiquei ali te pedindo para ficar parada, para entender minha impaciência de lidar com aquela situação. Veio à luz o meu lado prático de resolver as coisas com pressa e pouca sensibilidade. E foi aí que você chorou mais. Nesse momento, me veio um estalo. Eu enxerguei minha criança sentada, vestida de balé, tentando ser criança e sendo podada. Foi aí que parei e te abracei. Imediatamente você parou de chorar. Nos reconectamos e te pedi desculpas por não ter entendido, de imediato as suas necessidades. 
No outro dia, me vi desesperada para que você dormisse, pra que eu pudesse fazer minhas atividades de casa e trabalho. Depois de muito esforço, eu consegui. E aí o vizinho te acorda, após apenas 20 minutos. Fiquei chateada e com raiva do vizinho. Me coloquei na posição de vítima, sem perceber. E é tão natural esses momentos, por mais que racionalmente eu não queira. 
Peguei você e levei-a até o seu quarto e coloquei-a no chão, com a expectativa de que vc se satisfizesse apenas com a minha presença ali no mesmo cômodo. Mas pra vc não bastava. Você queria contato, conexão, presença. Super natural, mas muitas vezes difícil de entender e atender. Aí dei uma surtada, gritei forte, bati palma, xinguei o vizinho. Mas depois respirei e te peguei no colo. Te acolhi de novo, mas quem queria ser acolhida era a minha criança. Consegui me reconectar e fomos fazer um bolo de maçã. Melhorou! Mas depois na cama, deitada com você, veio à lembrança da minha infância. Fiquei pensando o quanto de acolhimento eu tive. Tenho a impressão de que não foi nenhuma. Talvez o fato de ser a caçula de um grupo de 3 irmãos (que deram muito tabalho), tenha me privado de receber conexão. Talvez minha educação tenha sido no modo automático, naquela filosofia que quem cuida de 2, cuida de 3. E não é bem assim. Pode até cuidar, mas não como precisa, não com o foco em atender às necessidades que cada criança vai demandar. E aí...cresci assim, desconectada da minha essência e me tornando uma adulta que está em busca de algo que não sabe o que é.
Não quero repetir isso com você, filha! Meu desejo é que eu possa te educar conectada com a sua essência, para que você consiga desempenhar o seu potencial máximo. Mas as vezes isso parece tão improvável. Possível, mas improvável. Porque nesse processo, muitas vezes me vejo dando o que nunca tive, Me doando de uma forma como nunca recebi. E aí é tão tão difícil! É difícil quebrar certos padrões que insistem em permanecer, por mais que eu estude, que eu pense, que eu racionalize. Mas o coração não reflete o que a cabeça já compreendeu. 
E nesse ambiente, filha, é que eu sigo tentando. Buscando a minha própria cura, tentando acolher a minha criança, mas ainda repetindo processos de desamor, culpa e autocobrança que só me afastam do meu maior objetivo de ser melhor, por você e pra você.
Te peço perdão, filha. Por todas essas vezes que eu não consigo ser a minha melhor versão. Saiba que estou tentando, a todo o tempo, me auto-educar pra nós duas. Meu amor por você é grande demais para que eu desista de tentar.

Mais dias difíceis (escrito em 05/01)


Alguns dias são bem difíceis, filha. Esses últimos dias foram desses. Seu pai anda preocupado com o trabalho e eu ando cansada.

Na sexta ele saiu de casa as 1:00 da manha para resolver problemas com a obra do telhado. Também fiquei sem dormir até ele voltar. E senti uma dor que acho que são dos ovários.
Pra mim é sempre difícil ficar sem dormir. Tenho dificuldades depois de gerenciar a falta de paciência e me sinto mais vulnerável.

Você não quis dormir a tarde toda e eu torcendo para, ao menos, uma horinha de trégua. Mas não rolou e o cansaço (e a cobrança mental de ter que fazer coisas) me fez chorar. Chorei de sono, de ansiedade, de medo e de angustia por tanta coisa. Resolvi acolher o choro e senti-lo.
Te pedi um abraço e expliquei minha tristeza.

Você me olhou com seus olhos profundos e riu. Me acolheu! Me senti mais leve e resolvi deixar fluir. Já percebi que é pior forçar você a dormir. E mais uma vez lembrei o quanto é dificil dar aquilo que não recebemos. E nessas horas, de choro, de desespero, de plena doação de toda a minha energia, percebo o quanto recebi muito pouco. O quanto a minha criança interior precisa de um abraço, de um afeto, de alguém que lhe diga "estou aqui. Conte comigo. Você não está sozinha!".
Foi aí que fechei os olhos e conversei com essa criança. Dei um abraço apertado nela e disse que eu estava ali para ela. Foi muito importante esse encontro. Afinal, você não pode ser responsabilizada pela minha impaciência e por tudo o que esta aqui dentro, fruto do meu passado e presente.

Depois disso, você adormeceu e eu aproveitei para conversar com você, pedir desculpas e dizer que nenhum daqueles sentimentos eram sua responsabilidade.

E seguimos assim, filha. Errando, refletindo e tentando acertar. Na certeza de que você está me ajudando nesse mergulho profundo sobre mim mesma. E mesmos com esses dias difíceis, só temos motivos para agradecer.

O que eu observo em você 5

  Filha, O tempo está passando mais rápido o que nossa consciência pode perceber. Aqui pela floria, acabamos e viver a experiência o nosso...