sábado, 1 de outubro de 2022

O que eu observo em você 5

 Filha,

O tempo está passando mais rápido o que nossa consciência pode perceber. Aqui pela floria, acabamos e viver a experiência o nosso primeiro furacão Ian. Deu tudo certo, mas o furacão mesmo aconteceu aqui dentro, do meu peito.

Tive um ciclo menstrual difícil, e a presença os seus avós paternos em nossa (minúscula) casa, tb me fizeram vivenciar processos profundos, um verdadeiro caldeirão emocional. Medo, ansiedade, esperança, raiva, limites ultrapassados, tudo junto e misturado na mesma proporção. Também percebi o quanto estamos doentes, imersos nesse mundo virtual, fechados para os lindos convites que, vcs crianças, nos fazem diariamente, de conexão com vocês. E agradeci por observar isso. Porque também estou nesse meio e desconexão. Agora vou me observar mais e tentar deixar o celular distante quando estivermos junto a você.

Você cresce lindamente, cheia e energia e autenticidade. Ainda agora, numa meditação e encontro com muita criança interna ferida, me vi tanto em você, desde o movimento até a alegria de viver.

Com seus 3 anos e 3 meses você começa a contar histórias, assim a própria cabecinha, inventadas e misturadas com diversas partes a sua existência.

Você também junta coisinhas, pecinhas pequenas, guarda elas dentro de bolsinhas e leva consigo para todos os lugares, talvez na vontade de que esses pequenos objetos lhe tragam uma segurança maior, e um mundo já tão repleto de experiências de despedidas.

Você também tem muitos desejos, e busca-la satisfaze-los fortemente, com toda a sua energia. E nessas tentativas, por vezes você nos parece autoritária, um pouco mandona. Estamos dando contornos, buscando observar o quanto isso também faz parte a sua personalidade e o quanto é parte da sua primeira experiência escolar.

Você viaja o Brasil ao EUA, na distância do quarto a sala. E prepara delicadamente sua mala para fazer essa travessia. Por vezes, você também nos convida a fazer essa viagem junto a você.

Você também coloca seus amigos e outros milhares objetos para dormir, assim deitadinhos em fila, e os cobre, delicadamente, de forma a mantê-los aquecidos.

Você corre com a velocidade do vento, e seus passos já não vacilam mais. Sobe, desce, pula e gira com total destreza e noção dos seus espaços e corpo.

Você cresce, filha. E enche meu peito e amor e esperança.

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

Não quero mais ser mãe

 Filha, 

Eu sei que está difícil pra você também. Sei que, diante do seu corpinho miúdo, existem tantas coisas pra você processar e que seus protestos e noites mal dormidas são apenas reflexos de toda a confusão que está aqui dentro. Voltei a viver um momento de retração e sinto uma frustração gigantesca por perceber que, mal comecei a curtir uma fase de leveza e bons pensamentos, algo acontece em nossas vidas, nos levando para um lugar de total escuridão. 

Confiança! Ando tentando cultivar isso, mas está difícil diante de tantos desafios. Depois que a casa pegou fogo, senti meu mundo desmoronar de novo. Passei a ter raiva de você, do seu pai, da vida que escolhi. Sinto saudades de quem eu era, das minhas aventuras, da liberdade de poder, simplesmente, fluir. Aquele sentimento de não querer mais ser mãe voltou a me habitar. Sei que é temporário e, em breve, voltarei a olhar dentro dos seus olhos e agradecer por você ter me escolhido para ser sua mãe. Mas nesses dias mais intensos, em que não consigo dar conta de tantas emoções que me atravessam, só tenho vontade de fugir. 

Você não é responsável por essas emoções tão confusas! Eu sou a responsável e ainda estou no início do caminho de conseguir lidar com meus próprios dragões internos que me engolem nesses dias mais difíceis. 

Tenho vergonha de todas as vezes que grito com você diante desses momentos. Tenho vergonha de “descontar” em você minhas frustrações mais profundas. 

E a medida que eu mais mergulho nesse pântano profundo, mais você me demanda, mais você quer me salvar e mais eu sofro por não conseguir te oferecer o respeito mínimo que eu gostaria e que você merece. 

Sinto raiva também do seu pai. Talvez pela percepção inconsciente da incapacidade dele de cuidar da gente, de cuidar de mim, de me oferecer uma vida melhor. É uma emoção também desnecessária porque não quero manter esse pensamento patriarcal de que é responsabilidade do homem cuidar de nós mulheres. Mas talvez ainda seja difícil olhar para a fraqueza e vulnerabilidade dele.

Sigo tentando filha. Por agora, só consigo te pedir desculpas pelo grito e falta de empatia no meio da noite, com os olhos molhados de lágrimas e repletos de vergonha. 

quarta-feira, 20 de abril de 2022

A dificuldade de estabelecer limites- seus e nossos

Filha,

Eu hoje precisava vir aqui, lhe escrever essa carta, que há tanto tempo escrevo nos meus próprios pensamentos. O sentimento interno é de ambivalência, e entre lavar o banheiro (que já acumula mosquitinhos voando), ler um livro ou atualizar os gastos do mês, sinto que preciso desabafar com você. Isso também me ajuda a organizar os pensamentos do dia e olhar para essa dor no corpo que o enrijece completamente.

Estamos atravessando dias difíceis. As coisas estão melhorando e as perspectivas de um futuro melhor também, mas ainda assim, eu e seu pai estamos com dificuldades na relação com você. A cada dia, sua personalidade floresce e eu me encanto com sua forma de permear o mundo. No entanto, sinto que o fato de estarmos quebrando tantos paradigmas, nos enfraquece um pouco, seja porque não temos rede de apoio, seja porque lutamos com nossos dragões internos diariamente.

Sua adaptação na escola não foi como o esperado: responsabilidade nossa de ter criado essa expectativa pelo simples fato da educação com apego que escolhemos. Mas é natural que você esteja ansiosa com todas essas mudanças, mas idealizamos que seria tão mais suave, que ficamos nesse lugar de pena ou questionamentos. Além disso, acredito que você esteja percebendo o movimento do desmame, que precisei recuar para me sentir mais fortalecida. E esse processo tem me mostrado pontos da nossa relação, que talvez eu ainda não tivesse olhado.

- a amamentação é um lugar de paz para mim, em que consigo me conectar e te acolher sem tanto esforço e onde consigo mantê-la sob controle, sem emanar tanta energia. Mudar essa dinâmica já estabelecida e internalizada está ‘mexendo’ com as minhas bases e fazendo eu me sentir incapaz;

- talvez não seja tão fácil pra mim me conectar com você para além do ‘mamainho’. Eu julgava sua avó por isso em observá-la interagindo com você, mas percebo que tenho essa dificuldade muito mais do que imaginava. Consigo sentar e brincar, mas percebo que a minha qualidade de presença é limitada. Estou sempre com os pensamentos em mil lugares distintos, e perco a oportunidade de simplesmente ‘estar’ ali com e pra você;

- é possível que a amamentação tenha servido para nutrir a minha criança interna, muito mais do que você. Pela ausência de me sentir amada, fiz da amamentação uma grande bandeira e me orgulho do que construímos até aqui. Mas percebi que, neste campo, estou sendo a mãe que eu gostaria de ter tido e não a mãe que você precisa. E isso me dói demais.

Você está numa fase em que testa os limites: os seus, os meus e os nossos. E embora eu e seu pai saibamos que não se trata de algo premeditado, apenas um período que faz parte do seu desenvolvimento natural, as lutas com nossas feridas internas são tão intensas, que perdemos o controle facilmente diante da menor situação. Somos violentos com os gestos e com as palavras, e quando nos damos conta, já foi tarde demais. Basta-nos pedir desculpas e amargar a reflexão do aprendizado.

Ontem, filha, aconteceu um episódio triste, que queria compartilhar com você: a manhã e tarde foram difíceis. Você estava sensível, pelo sono e pelo momento desafiador da casa e juiz de fora, que estamos atravessando. Por duas vezes tentei ‘escapar’ do quarto, enquanto vc tirava a soneca. Mas nas duas tentativas você acordou. Já eram 15 horas e a fome batia forte. Na segunda vez resolvi me posicionar: fui gentil, mas te expliquei que eu precisava comer, porque precisava cuidar de mim para cuidar de você. Essa dedicação completa me ‘tira do sério’, seja porque estou me esforçando para dar algo que não tive, seja porque me sentir anulada em todos os sentidos me fere profundamente, além de saber que isso não é saudável nem pra mim e nem pra você. Mantive a minha posição, mas você protestava e eu lutava com as vozes da minha infância para não ser (mais uma vez) violenta. Em um determinado momento, eu chorei. Porque percebi minha dificuldade de manter essa posição de conexão com amor, gentileza, mas firmeza. Imediatamente, você parou de chorar. E como um adulto que empatiza com o outro, começou a me beijar e abraçar. Eu continuava chorando com você nos braços, enquanto explicava que minhas lágrimas não eram culpa sua. Que eu era adulta e que era responsável por aquilo que sentia, mas que estava com dificuldades de ser respeitosa com você e isso me doía.

Nos conectamos, finalmente, e tudo flui melhor.

No entanto, fiquei me questionando até que ponto não estou passando pra você o sentimento de que preciso ser cuidada, de que você é responsável por essas lágrimas, transferindo assim as minhas próprias dores de infância, a minha codependência que ainda não tive coragem de mergulhar. Foi bom voltar ao prumo e não ser irracional (como tantas vezes), mas também não quero que você cresça se sentindo responsável por mim.

Além dessa situação, muitas outras se acumulam, na incerteza se estamos seguindo no caminho certo. Percebo que você necessita de limites claros, mas muitas vezes não somos capazes de estabelece-los com firmeza e gentileza. Muitas vezes também sinto que me falta observar mais você e ser mais responsiva com as suas reais necessidades. Outro dia, por exemplo, acabei ‘estourando’ porque você correu pra rua. Eu já havia percebido em outras ocasiões, o que o medo de perder você (ou algo de ruim acontecer), é um gatilho para que eu perca o meu controle emocional. Além disso, misturou-se ao meu medo do julgamento alheio e das pessoas que estão a volta. Fui muito violenta com você e, fiquei tão nervosa, que me faltou ar. Depois, em casa, refletindo sobre o ocorrido, percebi que eu não soube ler o seu cansaço. Você estava muito cansada e encontrou nessa brincadeira perigosa, uma forma de me mostrar isso. Mas eu não consegui captar. E percebo que muitas vezes não consigo fazer essa leitura adequada. Aí depois sobra a culpa e o arrependimento por ter sido rude novamente.

Na nossa história, filha, ainda existem muitos episódios de violência, embora nos esforcemos tanto para fazer nosso melhor. Mas estamos seguindo, filha, e aprendendo a cada dia ser um pouco melhor, observar melhor as suas necessidades e enfrentar nossos vazios para que eles não sejam refletidos em você. Nessa estrada, ainda cairemos muitas vezes. Mas na certeza de que o amor é infinito e que poderemos construir muitos diálogos quando você decidir trilhar o seu próprio caminho de autoconhecimento.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

Cinza

Tem dias que parecem que seria melhor permanecer dormindo. Hoje é Domingo e, pra mim, seria um dia desses. Acordamos às 9:00. Passei a noite acordando varia vezes e te doei peito todas as vezes que você me pediu. Não neguei nenhuma vez, por maior que fosse o cansaço, que já se acumulam em 2 anos e meio de noites mal dormidas. Consegui dormir mais um pouco enquanto o seu pai brincava com vc. Quando levantei da cama, fui tomar meu café, como forma de beber um pouco de energia que já me falta há meses, quiçá anos. 

E na primeira tentativa de trocar sua fralda, você reagiu. Choros, lamúrias, pedidos incompreendidos. Tentei a ludicidade com a zebra. Foi em vão! Talvez porque lá no meu mundo interno houvessem outras coisas reverberando. Insisti, conversei, me esforcei para manter a paz interna. Também foi em vão. Quando você insistiu no choro e na revindicacao, aumentei o tom de voz e gritei. Fui grosseira, mas mantive a firmeza. E só assim você recuou. Consegui trocar a fralda, mas a raiva perdurou. 

Hoje, mais uma vez, desejei não ser mãe. É isso não tem nada a ver com você, mas a essa forma dura que a sociedade tem de deixar a maternidade preferencialmente aos cuidados das mães. Senti o peso do mundo sobre meus ombros e tive vontade de fugir, de correr para bem longe, como sempre agi ao invés de enfrentar os meus problemas. 

E a tempestade se acalmou! 

Mas no início da tarde, ainda sob a pressão do mundo e a vontade de sair para espairecer, perdi o prumo de novo e gritei! Foi um uivo que veio de dentro das minhas vísceras, como se eu quisesse libertar todas as sombras que habitam em mim!

Recuei enquanto você esperava sentada. E mais uma vez chorei! Compulsivamente toda a dor, cansaço e culpa por agir de forma tão violenta e infantil. 

Chorei, chorei, chorei, tentando lavar a alma e trazer mais leveza pra esse dia difícil. 

Calei e fui escrever! Você dormiu!

Eu e seu pai conversamos e foi bom perceber ainda uma centelha daquilo que nos uniu. Ela ainda existe e pode ser reacesa (embora muitas vezes eu ache que já está tarde demais).

E o cinza foi clareando e o céu abrindo! Conseguimos rir e brincar.

Mas o cansaço é tão grande que ao menor sinal de desafio, já estamos impacientes de novo, esvaziados. 

Hoje me senti uma péssima mãe. Senti estar indo no caminho oposto daquilo que acredito e quero lhe ensinar. Senti o peso do patriarcado cravejado em meu subconsciente. Senti a hipocrisia vestir-me inteira. 

Agora, filha, quero apenas que vc aceite a minha humanidade e me perdoe. E que esse dia termine!!  


quarta-feira, 13 de outubro de 2021

2 anos

Filha,

Chegamos ao mês de junho, esse mês tão esperado e desejado, em que comemoramos o seu nascimento e o meu aniversario. 

Você acaba de completar dois anos e isso trás um grande significado, porque passamos da marca de 1000 dias!!! E, ainda que com muitas dores e tanta dificuldade, consegui realizar o meu propósito de acompanhar cada dia desse ao seu lado. 

Achei que seria mais fácil, mas acho que porque romantizei um bocado. Afinal, a maternidade é algo que me acompanha desde que eu era uma criancinha e colocava as bonecas para dormir. Também nao imaginava que eu traria à tona tantas sombras. Mas acho que valeu cada segundo. Valeu por todo o amor (e tanta raiva) que senti. Valeu por ter acompanhado cada nova descoberta sua, por ter acompanhado seu crescimento e seu "olhar" no mundo. Valeu pelos milhares de mergulhos que precisei fazer no meu íntimo, para aprender, e reaprender e me redescobrir. Obrigada por cada abraço e cada sorriso!! 

Que eu possa continuar assim, grudadinha em você (mas com espaços saudáveis para ambas) nos próximos 1000 dias.

Para comemorar seus 2 anos, coloco aqui um discurso que fiz na comemoração do seu dia. Te amo! Obrigada por me escolher. 

"Estamos aqui reunidos hoje para celebrar os 2 aninhos da nossa filha querida. E é um grande prazer poder festejar esse dia com vcs. Há 2 anos eu e Leleco vivenciamos uma das experiências mais incríveis de nossas vidas. E, no nosso caso, foi um momento mais do que esperado pq vcs bem sabem nossa trajetória para conseguir realizar esse sonho. Por muitos momentos vacilamos e tivemos dúvidas. Choramos de alegria, de tristeza, de falta de esperança. Mas mantivemos a fé e seguimos, confiando no que Deus tinha nos reservado. E nessa trajetória aprendemos a entender melhor o tempo das coisas. Na verdade, antes mesmo de nascer, Clarice já estava nos ensinando muita coisa. Hoje percebo o poder que os filhos tem, de serem um portal pessoal de aprendizado, autoconhecimento, um convite diário para revermos nossos conceitos e nossas emoções. Tem dias que esses processos são mais dolorosos do que confortáveis, é verdade!  Mas seguimos firmes olhando os pequenos milagres que o dia a dia nos trás. Aliás, é sobre esses pequenos milhares que quero enfatizar hoje. Sabemos que cada um dia vcs está vivendo suas próprias batalhas internas. Nós também estamos! E agradecemos a cada um de vocês, pois, mesmo diante de suas batalhas pessoais, estão aqui conosco para celebrar, sobretudo a vida! A nossa e a da Clarice! Isso é um pequeno grande milagre, que queremos agradecer! E é uma oportunidade de lembrarmos o que é esse milagre da vida, que é cíclica, ora nos trazendo momentos de pura expansão, noutras de retração. A natureza é assim: dia/noite, verão/inverno, vida e morte das plantas. 

Na correria do dia a dia, acabamos esquecendo isso, e muitas vezes esperamos uma linearidade, que não existe. 

Por isso, hoje, aqui imersos à natureza, vamos lembrar dessa ciclicidade da vida e celebrar uma comemoração de pura espansao, de vida, de gratidão, de amor, puro amor que sentimos por cada um de vocês! Porque serão esses momentos, de puro amor, que sempre iremos recordar com a fé vacilar, quando o medo chegar, quando a dor nos abraçar. Será sempre esse amor, que nos nutre e ilumina. 

Obrigada a Deus, a Clarice e a vocês por serem luz em nossas vidas"




sábado, 31 de julho de 2021

Pequenos milagres

Filha,

Hoje mais uma vez acordamos cedo. Tentei sustentar mais uma vez o seu choro, negando meu peito, porque a exaustão já dobra a esquina de tão longa. 

Nao consegui! 

Acabei cedendo e você me ouvia falar, olhando profundamente, como se desvendasse o que habita o profundo da minha alma. 

Mas cedi consciente, entendendo que havia espaço para o diálogo, mas que aquele nao era o melhor momento. Aí pensei....muito.....em tantas coisas. 

Pensei nesse momento que estamos vivendo e o que essa lua cheia veio me mostrar. Pensei no meu último ciclo menstrual e em tudo o que ele trouxe à tona: dor e necessidade de expulsar tudo o que nao serve mais e que estava aqui dentro. 

Também pensei nas mudanças que viveremos, iminentes. E um pequeno sorriso de esperança chegou no rosto. Eu gosto de mudanças, por mais que os medos sejam intensos. Mas o medo da mudança eu já me acostumei a habitar. Tenho medo de outros medos. De nao realizar, de nao viver plenamente a minha autenticidade, o meu protagonismo.

Ai começamos a nos espreguiçar e a brincar juntas na cama e meus pensamentos se foram para os aprendizados que estão chegando tão profundamente nesse mês que acaba. Lembrei o quanto é difícil ser criança nesse mundo feito para adultos. Pensei no quanto nos distanciamos dessa maravilha que é ser autentico e verdadeiro em nossa essência, fazendo valer nossas necessidades. Nós, adultos, nos incomodamos com isso. E percebo isso em cada rótulo que escuto dos seus avós. Também vejo o quanto eles estão imersos em suas próprias rotinas escravizantes, ao ponto de nao conseguirem se conectar minimamente com seus pedidos de atenção e brincadeiras. 

O convite está ali, diante dos seus pequenos dedinhos. Mas eles nao tem a sensibilidade para aceitar e nao se permitem "permitir". 

Aí pensei na tal rede de apoio, Filha. E o quanto do meu legado e missão nao está relacionado a isso, na construção dessa rede de apoio capaz de olhar para esses pequenos milagres que as crianças nos convidam, diariamente. Agradeci por isso!! Agradeci nessa manha por estar aberta a aceitar esse seu convite e vivenciar esses pequenos milagres.

Nem sempre consigo! E o cansaço é o grande responsável por esse descuido. Mas nao canso de pensar que o conceito de "aldeia" existe para isso. Para que o outro assuma, quando um já nao consegue mais usar a lente da ludicidade. Ontem vivenciamos uma situação assim. Eu já estava cansada de um dia cheio de problemas, e na hora de dormir, sugeri que você desse boa noite pra vovó. Você resistiu e eu nao consegui pensar em outra forma de te convencer. Ia, simplesmente, ceder e dormir. Sua tia, que é uma grande educadora, viu dois chapéus pendurados na parede e sugeriu usar no boa noite pra vovó. Você, prontamente, topou. E abriu um sorrisão contente para a tal missão. E eu fiquei ali, só observando, e agradecendo por ter uma tia Elaine naquele finalzinho de dia, que o cansaço nos abraça valente. E hoje, relembrando essa situação, pensei o quanto é importante podermos vivenciar momentos como esse, para que possamos lhe proporcionar uma vida leve, cheia de significado e conexão. Essa rede lúdica que apoia e sintoniza na mesma energia de educação, ajuda a transformar a vida de todos: os pais, os filhos, o mundo. 

Mas isso é tão raro, filha! Tao raro!!! E lamento porque ainda nao temos o mundo com esse olhar. Com essa sensibilidade para ver o mundo pela ótica das crianças. Seria tão maravilhoso! Ao invés disso, temos esse olhar do adulto que está sempre querendo "consertar" as crianças, como se elas estivessem sempre erradas pelo seus comportamentos que, mais das vezes, são apenas curiosidades e interações com o mundo.  

Ainda nessa manha florida, em que tomamos café felizes, cheias de brincadeiras e abraços, também pensei que nosso papel, como pais, é sermos jardineiros, cujo trabalho é cuidar da terra para que ela seja fértil e estabelecer os limites de cuidado para que cresça com assertividade. As crianças são como sementes, cujo potencial pra brotar já está ali inscrito e intuitivamente estabelecido. Nessa relação simbiótica, nao é trabalho do jardineiro mudar a semente. Promover essa mudança seria agir contra a natureza e as surpresas que ela nos reserva. O papel do jardineiro é criar contornos e manter o solo fértil para que essa semente venha a realizar todo o potencial do "vir a ser". 

Mas infelizmente vivemos (ainda) num mundo em que os adultos querem alterar a semente e estabelecer o que elas precisam ser (ou ter, o que é ainda pior). 

Triste, filha. Além de preocupante!! 

E eu sigo aqui, Clarice. Tentando ser jardineira todos os dias. Tentando ver a vida através do seu olhar de criança, num mundo totalmente novo. Eu falho muito!! Mas tenho uma tal consciência que me faz voltar ao eixo, mesmo depois de uma tormenta tão grande. Eu peço desculpas e sei reconhecer meus erros. Porque no final das contas o que mais importa é sermos humanos. 

quinta-feira, 29 de julho de 2021

Raiva

 Filha,

Hoje senti uma raiva imensa de você. Me sinto um pouco envergonhada de expor essa minha vulnerabilidade assim, dessa forma. Mas senti! E acho importante você saber porque isso faz parte da minha humanidade. 

Senti raiva porque você nao dormiu a noite toda e me exigiu uma sobre energia para te amamentar tanto.

Tive raiva porque você acordou as 6:30, cheia de energia e sem qualquer mágoa pela confusão da madrugada.

Senti raiva porque você nao aceitou pacifica que eu lhe colocasse suas meias e sandália. Também por você pedir milho tão cedo. 

Senti raiva, principalmente porque você me fez ver as sombras ainda tão profundas que me permeiam, e toda a minha falta de amor na infância. 

Também senti raiva por essa energia sem fim, e pela luta contra o sono, sempre frequente. 

Mas também senti raiva de mim. Por nao ser tolerante com o seu jeito criança. Por me sentir tão selvagem e intolerante. Por ainda nao ter esse amor tão genuíno que você tem com tanta facilidade.

Senti raiva de mim, muita raiva, por te olhar tão gentil e fofa, mesmo depois de receber tanta violência. Gratuita! 

E chorei, filha. Pensando que "você é apenas uma criança, tentando viver nesse mundo de adultos". 

Hoje também senti raiva do mundo. Dessa solidão materna tão profunda. Desse mundo que inviabiliza a mãe e a torna a responsável por tudo.

Senti raiva do carro do camarão, do ferro-velho, do hortifrúti. Tive raiva de todos os ruídos do mundo que te acordavam sempre que eu insistia em faze-la dormir. 

Senti raiva do momento que estamos vivendo e desses medos que estão em erupção como um vulcão adormecido há anos. 

Senti raiva da minha infância, dos seus avós e dessas feridas tão profundas que me impedem de ser amorosa com você, tanto quanto eu gostaria. 

Senti raiva de todos os adultos do mundo, por nao perceberem o quanto fazemos mal a vocês, crianças, porque crescemos ouvindo que criança "manipula", e que precisa ser tolhido

Senti raiva por todo o sentimento de desamparo e nao pertencimento que possuo e por essa luta cruel que travo todos os dias com a minha própria consciência e as vozes internas.

Hoje eu senti raiva, filha. Muita raiva! E chorei tudo o que queria, para que as lágrimas pudessem levar essa raiva embora. E lavar minha alma!


O que eu observo em você 5

  Filha, O tempo está passando mais rápido o que nossa consciência pode perceber. Aqui pela floria, acabamos e viver a experiência o nosso...